O céu sobre Budapeste era da cor de um hematoma recente: roxo, cinza e carregado de chuva.
Dentro do jato, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido dos motores repulsores. Natasha Romanoff estava de pé perto da rampa traseira, verificando seus braceletes pela terceira vez. Ela não tremia. Sua frequência cardíaca estava em 55 batimentos por minuto — o ritmo de alguém dormindo, não de alguém prestes a pular em uma zona de guerra.
James Bond estava sentado no banco oposto, montando um rifle de precisão Accuracy International com movimentos fluidos e mecânicos. Ele vestia um traje tático preto, sem smoking dessa vez. Ele olhou para ela. Ele já tinha visto muitos assassinos. Já tinha trabalhado com os melhores. Mas havia algo na postura de Natasha hoje que fazia os pelos da nuca dele se eriçarem.
Ela não irradiava apenas perigo. Ela irradiava uma inevitabilidade aterrorizante.
— Estamos a dois minutos da zona de lançamento — Bond informou, encaixando o silenciador no cano. — O satélite do Q mostra calor em doze hostis no perímetro externo. Mais vinte no interior do armazém. Eles têm armamento pesado.
Natasha ajustou as luvas.
— Eles vão precisar de mais do que isso.
— Natasha — Bond chamou, fazendo-a olhar para ele. — Eu vi os relatórios médicos. Eu sei o que a Sala Vermelha fez. Mas você tem certeza de que o corpo aguenta? Isso não é um treino no tatame.
Ela se virou para a rampa que começava a baixar, deixando o vento gelado e a chuva entrarem na cabine.
— O corpo aguenta, James. A questão é se eles aguentam o corpo.
Ela não esperou o sinal verde.
Natasha correu e saltou no vazio da madrugada húngara.
Porto Industrial de Budapeste. Cais 9. 05:48.
A chuva caía em lençóis grossos, misturando-se com a névoa do Danúbio. O armazém 4B era uma estrutura de metal corrugado enferrujado, cercada por contêineres de carga empilhados como um labirinto.
Dentro, os agentes sobreviventes do MI6 — Williams e Davis — estavam entrincheirados atrás de uma empilhadeira virada. A munição estava acabando. O Agente Miller já estava morto, caído a alguns metros, o corpo inerte sendo um lembrete cruel da falha burocrática.
Os mercenários avançavam. Eram profissionais. Black Ops do leste europeu.
— Acabem com eles! — o líder gritou em húngaro.
Foi então que a luz do poste principal estourou.
Não queimou. Foi atingida.
Escuridão total no perímetro leste.
— O que foi isso? — um mercenário perguntou, levantando seu fuzil com visão noturna.
No topo de uma pilha de contêineres, uma sombra pousou. Não houve som de impacto. Aterrissagem de super-herói? Não. Aterrissagem de predador.
James Bond, posicionado em um guindaste a 600 metros de distância, observava pela luneta térmica.
— A Aranha está no ninho, — ele sussurrou no rádio. — Você tem o chão, Natasha.
Natasha desceu.
Ela não usou cabos. Ela saltou de uma altura de dez metros, rolando no concreto molhado e se levantando em um movimento contínuo já disparando.
Phit. Phit. Phit.
Três mercenários caíram antes de perceberem que ela estava lá. Tiros precisos. Pescoço, garganta, olho.
O caos estourou.
— Fogo! Matem ela!
Dez fuzis automáticos abriram fogo na direção dela.
O "velho" corpo de Natasha teria buscado cobertura imediata. Teria rolado, usado táticas de evasão, esperado a brecha.
A "nova" Natasha não esperou.
A Sala Vermelha, em sua crueldade, havia reescrito a biologia dela. As fibras musculares eram mais densas. Os reflexos, aprimorados pelo trauma constante, operavam em uma velocidade que beirava a precognição.
Ela correu em direção às balas.
Ela deslizou sob a primeira rajada, a água do chão espirrando. Com um impulso das pernas que rachou o concreto sob suas botas, ela se lançou contra o mercenário mais próximo.
Ela não apenas o socou. O impacto do punho dela no peito dele, amplificado pelos braceletes elétricos, afundou o colete de kevlar e jogou o homem de 90 quilos a cinco metros de distância, contra a parede de metal. O som de costelas quebrando foi audível mesmo sob a chuva.
Bond, assistindo pelo visor, deixou escapar um assobio baixo.
— Jesus Cristo...
Natasha era um borrão preto e azul.
Ela pegou um fuzil das mãos de um inimigo, desmontou-o com um golpe, usou a coronha para esmagar o nariz dele e girou, disparando suas "Picadas da Viúva".
Discos taser voaram, grudando em três alvos simultâneos. 50.000 volts fritaram os sistemas nervosos deles.
Ela não parava. Ela não ofegava.
Um mercenário tentou acertá-la com uma faca de combate por trás. Natasha sentiu o deslocamento de ar. Ela nem se virou. Ela jogou o cotovelo para trás com precisão cirúrgica, acertando a têmpora dele. O homem caiu como um saco de batatas, convulsionando.
Ela chegou à barricada onde os agentes do MI6 estavam.
Williams olhou para ela, os olhos arregalados de terror e alívio.
— Diretora?!
— Fiquem abaixados — Natasha ordenou. A voz dela não estava ofegante. Estava calma.
O líder dos mercenários, vendo seu esquadrão ser dizimado por uma única mulher, puxou um lançador de granadas.
— Morra, sua vadia!
— RPG! — Bond gritou no rádio. — Natasha, mova-se!
Bond disparou. O tiro de seu rifle acertou o ombro do líder, desviando a mira no último milésimo de segundo.
O foguete passou sibilando pela cabeça de Natasha e explodiu um contêiner atrás dela.
A onda de choque foi brutal. Fogo e metal retorcido voaram.
Natasha foi arremessada para frente.
Qualquer humano normal teria ficado atordoado. Teria os tímpanos estourados. Teria costelas quebradas.
Natasha rolou, absorvendo o impacto, e se levantou no meio da fumaça e das chamas.
Ela limpou o sangue de um corte superficial na testa.
O olhar dela mudou. Não era mais missão. Era execução.
Ela olhou para o líder ferido, que tentava recarregar.
Ela correu.
Ela saltou sobre os destroços em chamas, atravessando o fogo como se fosse feita dele.
Ela chegou ao líder antes que ele pudesse piscar.
Com uma mão, ela segurou o cano do lançador e o entortou para o lado. Com a outra, ela agarrou o pescoço dele.
Ela o levantou do chão. Com um braço só.
— Quem te pagou? — ela perguntou.
O homem engasgou, chutando o ar.
— Diga olá para o Diabo por mim — ela sussurrou.
E o arremessou contra o chão com força suficiente para criar uma cratera na lama. Ele não se moveu mais.
O silêncio caiu sobre o cais, exceto pelo crepitar do fogo e o som da chuva.
Bond desceu do guindaste de rapel, aterrissando ao lado dela. Ele olhou para os corpos espalhados. Olhou para o metal retorcido. E olhou para Natasha, que estava parada, a respiração apenas levemente acelerada, o uniforme chamuscado, mas o corpo inteiro exalando poder.
— Limpo — Bond disse, com um tom de respeito que ele raramente usava.
Natasha não sorriu. Ela caminhou até onde o corpo do Agente Miller estava.
Ela se ajoelhou na lama, ignorando a sujeira em seu traje.
Ela fechou os olhos abertos do garoto.
— Vamos levar todos para casa — ela disse, a voz embargada, mas dura como aço. — Os vivos e os mortos.
Sede do MI6. Londres. 09:30.
A entrada do MI6 em Vauxhall Cross estava agitada.
O Jato Stark pousou no heliporto sem autorização, ignorando os avisos da torre de controle.
Quando a rampa desceu, uma equipe médica correu para atender Williams e Davis. O corpo de Miller foi retirado com solenidade, coberto por uma bandeira.
E então, ela desceu.
Natasha Romanoff caminhou pela pista. Ela não tinha se limpado. O rosto estava sujo de fuligem e sangue seco. O cabelo ruivo estava preso num rabo de cavalo desfeito. O traje tático tinha rasgos e queimaduras.
Atrás dela, James Bond caminhava com seu rifle no ombro, mantendo uma distância respeitosa, como um guarda-costas de uma rainha guerreira.
Ela entrou no saguão principal.
O silêncio se espalhou como uma onda.
Secretárias pararam de digitar. Analistas pararam de andar. Agentes de segurança colocaram as mãos nas armas, mas não ousaram sacá-las.
Ela caminhava com um propósito furioso. O som de suas botas no piso de mármore era um tambor de guerra. Toc. Toc. Toc.
— Diretora Romanoff — um assistente de M tentou interceptá-la perto dos elevadores. — O M ordenou que você fosse imediatamente para a detenção administrativa até que...
Natasha nem parou. Ela continuou andando.
O assistente tentou colocar a mão na frente dela.
Com um movimento fluido, sem nem olhar, Natasha segurou o pulso dele e o torceu levemente, apenas o suficiente para fazê-lo se ajoelhar de dor e sair do caminho.
— Saia da frente — ela disse, calma.
Ela entrou no elevador. Bond entrou logo atrás, ajeitando o colarinho do traje tático.
— Você sabe que ele vai estar espumando, certo? — Bond comentou enquanto o elevador subia.
— Eu espero que sim — Natasha respondeu, olhando para o próprio reflexo sujo no metal da porta. — Porque eu estou com vontade de quebrar alguma coisa, e a mobília dele é cara.
Escritório de M. Último Andar.
A porta dupla de carvalho do escritório de M não foi aberta; foi escancarada.
Gareth Mallory, o M, estava de pé atrás de sua mesa, vermelho de raiva. Ao lado dele, Tanner (seu chefe de gabinete) parecia prestes a ter um ataque de pânico.
— VOCÊ PERDEU O JUÍZO?! — O grito de M ecoou pela sala à prova de som.
Natasha entrou, trazendo o cheiro de ozônio, sangue e chuva para dentro do ambiente esterilizado. Bond ficou na porta, encostado no batente, cruzando os braços para assistir ao show.
— Roubo de propriedade governamental! — M continuou gritando, batendo a mão na mesa. — Violação de espaço aéreo internacional! Operação não sancionada em solo estrangeiro! Insubordinação direta! Você tem ideia do pesadelo diplomático que você acabou de criar com o governo húngaro?
Natasha parou na frente da mesa dele.
Ela não gritou.
Ela colocou as duas mãos na mesa, inclinando-se para frente. A sujeira e o sangue em suas mãos mancharam os papéis imaculados de M.
— O Miller está no necrotério — ela disse. A voz era baixa, vibrando com uma intensidade que fez Tanner dar um passo para trás. — O Williams e o Davis estão na enfermaria, vivos. Eles estão vivos porque eu fui.
— Isso é irrelevante! — M retrucou, embora sua voz tenha vacilado por um segundo ao ver os olhos dela. — Existem regras, Romanoff! Nós não somos vigilantes! Nós somos uma agência de inteligência que opera sob mandatos! Você não pode simplesmente vestir uma roupa de couro e sair explodindo portos porque ficou chateada!
— Chateada? — Natasha riu. Foi uma risada seca, sem humor. — Eu não fiquei "chateada", Mallory. Eu fiquei eficiente.
Ela se afastou da mesa e começou a andar pela sala, gesticulando.
— Você me trancou atrás dessa mesa por um mês. Você me tratou como uma boneca de porcelana quebrada. "A coitadinha da Viúva Negra, vítima da Sala Vermelha".
Ela parou e apontou para o peito.
— Eles não me quebraram. Eles me forjaram.
Ela rasgou a manga do traje tático, mostrando o braço onde havia um hematoma feio que já estava ficando amarelo — curando-se a uma velocidade absurda.
— Você viu os relatórios de campo do Bond? Você viu a telemetria do traje?
M olhou para Bond. O 007 assentiu levemente.
— Ela limpou um esquadrão de trinta mercenários de elite em seis minutos, senhor — Bond disse, neutro. — Sozinha. Eu só dei suporte. Eu nunca vi nada igual. Nem mesmo nos arquivos dos Vingadores. Ela está... otimizada.
Natasha voltou a encarar M.
— Eu sou mais rápida. Eu sou mais forte. Eu sinto menos dor. O que o Dreykov fez comigo... ele tentou criar a arma perfeita. E ele conseguiu.
— Mas a arma está aqui. Do seu lado. E você está tentando usá-la como peso de papel!
M respirou fundo, tentando recuperar a autoridade.
— Isso não justifica a insubordinação. Você colocou a agência em risco. Eu deveria te demitir agora mesmo. Tirar sua licença. Te processar.
Natasha caminhou até ficar cara a cara com ele. Ela era mais baixa, mas naquele momento, parecia ter três metros de altura.
O olhar dela era aterrorizante. Era o olhar de alguém que já matou monstros e deuses, e não tinha medo de burocratas.
— Tente — ela desafiou. — Me demita. Me tire a licença.
— Mas saiba de uma coisa, Gareth. O mundo lá fora está ficando mais estranho. Mais perigoso. Hidra, Leviatã, bruxos das trevas, alienígenas... as ameaças não seguem protocolos. Elas não esperam três assinaturas para matar garotos de 24 anos.
— Você precisa de mim. Você precisa da Viúva Negra. Não sentada assinando relatórios de despesas, mas lá fora, nas sombras, fazendo o que ninguém mais consegue fazer.
Ela apoiou o dedo no peito dele, empurrando levemente.
— Eu não sou sua funcionária de escritório. Eu sou a Diretora de Operações Especiais. E se você quiser que seus agentes parem de voltar em sacos pretos, você vai me deixar liderar. Do meu jeito. No campo. Onde eu pertenço.
O silêncio na sala foi absoluto.
M encarou Natasha. Ele viu a sujeira, o sangue, a fúria. Mas também viu a competência. Viu a verdade nua e crua: ela era a melhor. Ela era uma força da natureza. Tentar controlá-la com regras de RH era como tentar segurar um furacão com uma peneira.
E ele viu medo nos olhos dela? Não. Viu certeza.
Ele engoliu em seco. Pela primeira vez em anos, M sentiu um frio na espinha. Ele percebeu que, se ele dissesse "não", ela não iria apenas embora. Ela derrubaria o MI6 tijolo por tijolo antes de sair.
M suspirou, derrotado. Ele ajeitou o paletó, tentando manter a dignidade.
— O governo húngaro vai exigir explicações — ele disse, a voz cansada. — Eu vou ter que gastar todos os meus favores políticos para encobrir a explosão no porto.
Isso era uma concessão.
Natasha descruzou os braços. A postura de ataque relaxou minimamente.
— Diga que foi um vazamento de gás — ela sugeriu, cínica. — Ou terroristas. Eles adoram culpar terroristas.
M caminhou até sua cadeira e sentou-se pesadamente.
— Você está suspensa por uma semana — ele disse, pegando uma caneta. — Sem pagamento. Para manter as aparências.
Ele levantou os olhos para ela.
— E Romanoff?
— Sim, senhor?
— Da próxima vez que você roubar um jato... tente trazer ele de volta sem buracos de bala. O Stark manda a conta para mim.
Natasha permitiu-se um micro sorriso.
— Entendido.
— Saiam da minha sala — M ordenou, pegando um frasco de aspirina. — Os dois. Antes que eu mude de ideia e mande prender vocês.
Natasha se virou e caminhou para a porta.
Bond abriu a porta para ela.
— Depois de você, Diretora.
Eles saíram para o corredor. Tanner estava pálido. Os assistentes fingiam trabalhar.
Natasha respirou fundo. O ar do corredor parecia mais leve.
Ela tinha vencido. Não só os mercenários, mas a jaula.
Bond caminhou ao lado dela em direção aos elevadores.
— "Vazamento de gás"? — ele riu. — Clássico.
— Funciona sempre — Natasha respondeu, sentindo a adrenalina começar a baixar e a exaustão bater. — Obrigada, James. Pelo suporte.
— Disponha. Foi... educativo. — Bond apertou o botão do elevador. — Mas agora, se me dá licença, eu tenho um encontro com uma garrafa de Vesper Martini e minha cama.
— E eu... — Natasha olhou para as mãos sujas. — Eu tenho um encontro com um banho quente, um bolo de chocolate e uma filha adolescente que provavelmente está me esperando para ir caçar gnomos.
A porta do elevador se fechou, levando a Viúva Negra de volta para o mundo dos vivos, suja, machucada, mas finalmente, inegavelmente, livre.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
