Hall de Entrada da Cobertura. 11:45.
A mala de Natasha já estava perto da porta. A mochila de Emma — estufada e com uma varinha saindo perigosamente pelo zíper — estava jogada em cima dela.
Emma saiu do quarto parecendo um raio de sol em forma de adolescente. Ela usava um macacão jeans, tênis All Star e um sorriso que mal cabia no rosto. A perspectiva de ir para A Toca, comer a comida da Sra. Weasley e ver o caos mágico pré-Copa Mundial era o combustível perfeito para sua ansiedade.
Na porta, o clima era diferente.
James estava de pé, com a mão na maçaneta, bloqueando a saída de Natasha com o corpo. Ele a beijava não como se fosse uma despedida triste, mas como se quisesse garantir que ela levasse o gosto dele na viagem.
Era um beijo lento, carinhoso, de quem estava aproveitando cada segundo da reconciliação da noite anterior.
— James... — Natasha riu contra a boca dele, tentando se afastar levemente, mas sem muita convicção. — Nós vamos perder a hora da Chave de Portal. Se atrasarmos, o Arthur vai ficar nervoso e os gnomos vão dominar o jardim.
— Deixa os gnomos dominarem — James murmurou, roubando mais um selinho demorado. — Fica aqui. Deixa o mundo mágico se virar.
— Aham!
O pigarro alto e teatral de Emma cortou o momento.
James se afastou rindo, mas manteve um braço firme ao redor da cintura de Natasha, puxando-a contra si. Ele olhou para a enteada com um sorriso divertido.
— Pronta para a aventura, pestinha?
Emma revirou os olhos, mas foi até ele e o abraçou forte.
— Estamos prontas. E para de drama, Bucky. Nós vamos voltar na segunda-feira. É só um fim de semana.
Ela se afastou e apontou o dedo para ele, com um olhar sério que era uma cópia cômica do olhar da mãe.
— Mas ó: aproveita bem a minha mãe nessa próxima semana. Janta fora, vai no cinema, faz essas coisas de noivos melosos.
— Porque depois disso... eu vou roubar ela de novo.
James ergueu uma sobrancelha, confuso, mas divertindo-se.
— Roubar?
— É — Emma continuou, animada. — As férias de verão. Nós vamos passar dois meses na Toca esse ano. O verão inteiro. Por causa da Copa Mundial de Quadribol. A mãe ama ficar lá com a Molly, tricotando e bebendo chá, fingindo que não é uma assassina internacional.
James olhou para Natasha, surpreso.
— Dois meses? — ele repetiu, fingindo indignação. — Nat, você não me disse que seriam dois meses. Nós acabamos de noivar e você já está fugindo de mim?
Natasha deu de ombros, ajeitando a alça da bolsa. Ela parecia leve, feliz com a ideia de fugir da cidade, mas olhou para ele com doçura.
— É a Copa Mundial, amor. É histórico. E a Molly insistiu. Eu preciso de um tempo off. Longe de telefones, longe do M. Só eu, a Emma e magia.
— Eu podia ir junto — James sugeriu, dando um aperto na cintura dela. — Eu tenho férias acumuladas. O Weasley gosta de mim. Eu sou ótimo em arremesso de gnomos.
Natasha sorriu, passando a mão no rosto dele, ajeitando a gola da camisa dele com carinho.
— Eu sei que você é. E eu adoraria ter você lá. Mas... alguém tem que manter o MI6 de pé enquanto a Diretora está fora.
Ela riu.
— Eu tenho a vantagem da "ponte diplomática" com o Ministério da Magia. Já você... tem aquela turma nova de recrutas que começa segunda-feira. Se você não estiver lá para botar medo neles, o M vai ter um colapso.
James suspirou, derrotado pela lógica, mas sorrindo. Ele sabia que ela estava certa. Os recrutas precisavam dele, e ele gostava de transformar civis em agentes de elite.
— É verdade. Alguém tem que ensinar aquelas crianças a não atirarem no próprio pé — ele brincou, aceitando o destino. — Mas dois meses é muito tempo. Vou cobrar visitas nos fins de semana.
— Você pode aparatar lá quando quiser, desde que não assuste as galinhas da Molly — Natasha prometeu, ficando na ponta dos pés para dar um último beijo nele. — Tchau, meu amor. Te vejo na segunda.
— Tchau, Diretora. Tchau, Emma. — James abriu a porta para elas. — Divirtam-se. E tragam um pouco daquele bolo da Molly para mim.
Natasha e Emma saíram pela porta, rindo, arrastando as malas para o elevador.
James ficou parado na porta, observando as duas entrarem no elevador. Natasha mandou um beijo no ar antes das portas de metal se fecharem.
Jardim d'A Toca. Ottery St. Catchpole. Sábado à Tarde.
O jardim dos Weasley não era apenas bagunçado; era um campo de batalha ecologicamente ativo. O mato estava alto, as galinhas corriam em pânico e, de cada arbusto, cabeças de batata com pernas (os gnomos) surgiam para morder tornozelos desavisados.
— A técnica é simples! — gritou Ron, segurando um gnomo que xingava a mãe dele em gnomês fluente. — Gira, gira para deixar tonto e... ARREMESSA!
Ron lançou o gnomo. A criatura voou num arco parabólico sobre a cerca viva.
— Me solta, seu traidor de sangue! — o gnomo gritou enquanto voava.
Harry e Hermione estavam rindo, tentando imitar a técnica. Sirius Black, em sua forma humana, estava sentado na varanda com uma cerveja amanteigada, rindo alto e apontando para cada erro dos adolescentes.
Mas Natasha Romanoff não estava brincando.
Para a Viúva Negra, "desgnomizar" não era jardinagem. Era controle de perímetro.
— Mãe, você não precisa fazer uma chave de braço neles! — Emma gritou, rindo, enquanto segurava um gnomo pelas pernas.
Natasha estava no meio do jardim. Ela usava uma regata simples e calça cargo.
Um gnomo particularmente gordo e agressivo saltou de um buraco em direção ao joelho dela.
Natasha não girou.
Ela desviou com um passo lateral fluido, agarrou o gnomo pela gola da jaqueta minúscula no ar, usou a inércia dele para girar o corpo e o lançou com um golpe de judô perfeito.
O gnomo voou o dobro da distância dos de Ron.
— WEEEEEE! — o gnomo gritou, impressionado com a aerodinâmica, antes de sumir no horizonte.
— Dez pontos para a Sonserina pela técnica impecável! — Sirius gritou da varanda.
Foi então que Remus Lupin saiu da cozinha, secando as mãos num pano de prato. Ele usava seu cardigã surrado de sempre e tinha aquele sorriso cansado e gentil.
Ele viu Natasha cercada por três gnomos que planejavam um ataque coordenado.
Sem dizer uma palavra, Lupin desceu os degraus e entrou na briga.
Ele não usou magia.
Quando um gnomo pulou nas costas de Natasha, Lupin o interceptou no ar com uma mão, com reflexos que denunciavam o lobo dentro dele.
— Cuidado com a retaguarda, Tasha — ele disse, a voz suave, usando um apelido que ninguém ali usava.
Natasha sorriu de lado, sem olhar para trás, chutando outro gnomo (com delicadeza, claro) para longe.
— Minha retaguarda está coberta, Moony. Cuidado com o seu flanco esquerdo. Você sempre deixa ele aberto.
Os dois começaram a trabalhar juntos.
Era uma dança.
Natasha bloqueava, Lupin agarrava. Lupin girava, Natasha finalizava o lançamento. Eles não precisavam se falar. Eles se moviam com uma sincronia assustadora, uma familiaridade corporal que só existe entre pessoas que já lutaram (ou amaram) juntas.
Eles riam. Não a risada educada de conhecidos, mas risadas curtas, íntimas, de piadas internas que ninguém mais entendia.
Emma parou.
Ela estava segurando um gnomo pela cintura, que aproveitou a distração para morder o dedo dela.
— Ai! — Ela soltou o gnomo, mas seus olhos não saíram da mãe e do ex-professor.
Ela viu Lupin segurar o braço de Natasha para ajudá-la a pular uma raiz de árvore. O toque demorou um segundo a mais do que o necessário.
Ela viu o jeito que Natasha olhou para ele — um olhar suave, desarmado, que Emma só via ela direcionar a Bucky ou a ela mesma.
— Eles são bons nisso, né? — Harry comentou, parando ao lado de Emma, limpando o suor da testa. — O Professor Lupin e sua mãe. Parecem que treinaram juntos.
— É... — Emma murmurou, franzindo a testa. — Parecem.
A batalha contra os gnomos terminou. O jardim estava "limpo".
Natasha e Lupin pararam perto da cerca, ofegantes, os rostos corados pelo exercício.
O sol da tarde iluminava os dois, criando uma bolha dourada ao redor deles.
Lupin encostou na cerca, olhando para Natasha com um carinho indisfarçável.
— Você não perdeu o jeito — ele disse. — Continua letal.
Natasha prendeu uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— E você continua velho e reclamão, Remus. — Ela riu, mas havia doçura na voz.
Lupin baixou o olhar.
Foi aí que ele viu.
O brilho da Alexandrita e dos diamantes negros na mão esquerda dela, que estava apoiada na madeira da cerca.
O sorriso dele vacilou por um milésimo de segundo, uma sombra de dor cruzando os olhos âmbar, mas foi rapidamente substituído por uma expressão de felicidade genuína e resignada.
Ele estendeu a mão e tocou levemente o anel, sem tocar na pele dela.
— É lindo — ele disse baixinho. — Alexandrita. Pedra da mudança e do equilíbrio. Combina com você.
Ele levantou os olhos para os dela.
— James Barnes?
Natasha assentiu, o sorriso ficando mais suave, mas firme.
— Sim.
Lupin suspirou, um som que carregava anos de "e se".
— Eu estou feliz por você, Nat. De verdade. — A voz dele era sincera, mas carregada de uma melancolia pesada. — Ele é um bom homem. Ele te entende. Talvez... talvez melhor do que nós nos entendíamos naquela época.
Natasha colocou a mão sobre a mão dele na cerca. Um gesto de consolo.
— Nós éramos crianças quebradas, Remus. Tentando sobreviver a uma guerra.
— Mas eu estou feliz. E eu quero que você seja também. Com a Tonks. Eu vejo como ela te olha.
Lupin riu, sem graça.
— É complicado. Eu sou... perigoso.
— Você é amável — Natasha corrigiu, apertando a mão dele.
De longe, na varanda, Emma observava tudo.
Ela não ouvia as palavras. Mas ela via a linguagem corporal.
Ela via a intimidade. O toque na mão. O olhar de Lupin que parecia carregar um segredo triste. O olhar da mãe que parecia pedir desculpas por algo que Emma não sabia o que era.
— O que foi, Emma? — Hermione perguntou, percebendo a amiga parada.
Emma balançou a cabeça, confusa. A sensação no estômago dela era estranha. Como se ela tivesse aberto um livro no meio e percebido que faltavam páginas importantes do começo.
Ela sabia que a mãe e o pai (Sirius) eram amigos. Sabia que Lupin era amigo deles.
Mas aquilo... aquilo parecia outra coisa.
— Nada — Emma respondeu, mas seus olhos continuaram fixos nos dois adultos na cerca. — Só... eu não sabia que eles eram tão amigos assim.
— Eles viveram a primeira guerra juntos — Hermione racionalizou. — Isso cria laços fortes.
— É... laços — Emma repetiu, vendo Lupin se afastar e Natasha ficar olhando para o horizonte por um momento antes de voltar a sorrir para Sirius.
Emma guardou aquela imagem. Havia um fantasma ali. Um fantasma de um romance que ela nunca soube que existiu, mas que, de alguma forma, ainda assombrava o jardim ensolarado da Toca. E pela primeira vez, Emma percebeu que sua mãe tinha uma vida secreta que ia muito além de ser a Viúva Negra.
Quarto de Hóspedes da Toca. Madrugada de Domingo. 01:15.
A Toca estava adormecida. O único som era o ronco distante e ritmado vindo do andar de cima (provavelmente do Ron ou dos gêmeos) e o ocasional barulho metálico do vampiro no sótão ajeitando os canos. O quarto de hóspedes era pequeno, aconchegante e cheirava a cera de vela e madeira antiga.
Natasha estava sentada na beirada da cama de solteiro. Emma estava sentada no chão, entre as pernas da mãe, de costas para ela.
Era um ritual antigo. Natasha passava a escova pelos longos cabelos ruivos da filha, desembaraçando os nós do dia de "guerra aos gnomos", e começava a trançar.
O movimento era hipnótico. Esquerda, direita, centro. Esquerda, direita, centro.
O silêncio era confortável, mas Natasha, com seus instintos de espiã, sentia que a mente de Emma estava trabalhando a mil por hora. A respiração da menina mudava de ritmo quando ela queria perguntar algo.
— Mãe? — Emma chamou, a voz baixa para não acordar a casa.
— Hum? — Natasha respondeu, apertando a trança.
Emma brincou com a barra do pijama.
— Você e o Professor Lupin... o Remus. Vocês eram... amigos?
Natasha parou as mãos por um segundo.
Ela olhou para o topo da cabeça ruiva da filha.
Não foi uma pergunta sobre amizade. Natasha sabia ler nas entrelinhas. Emma estava perguntando sobre o que viu no jardim. Aquele segundo a mais de contato. O olhar compartilhado que carregava décadas de peso.
Natasha suspirou e voltou a trançar, mas agora mais devagar.
— Você é observadora demais para o seu próprio bem, sabia? — Natasha comentou, um meio sorriso triste nos lábios.
— Eu sou filha de uma espiã — Emma retrucou suavemente. — Eu vejo coisas.
Natasha prendeu a ponta da trança com um elástico. Ela deu um tapinha no ombro de Emma, indicando para ela se virar e subir na cama.
Emma obedeceu, sentando-se de pernas cruzadas, encarando a mãe com aqueles olhos verdes inquisidores.
— Quando eu tinha a sua idade, um pouco mais velha... — Natasha começou, escolhendo as palavras. — Eu fui enviada para cá. Para proteger a Lily e o James Potter. A guerra contra Voldemort estava começando a ficar feia.
Natasha olhou para a chama da vela na mesa de cabeceira.
— Eu fiquei muito próxima deles. De todos eles. Do Sirius, do Pedro... e do Remus.
— Nós éramos soldados, Emma. Crianças soldados. O medo faz as pessoas se unirem muito rápido.
Ela olhou para a filha.
— O Remus... ele se via como um monstro. Por causa da licantropia. Ele achava que não merecia ser amado, que era perigoso demais.
— E eu... eu era a Viúva Negra. Eu fui criada para ser uma arma. Eu também me sentia um monstro.
Natasha sorriu, uma memória distante suavizando seu rosto.
— A gente se entendeu na escuridão um do outro. Então... sim. Nós tivemos um romance.
Os olhos de Emma se arregalaram levemente.
— Vocês namoraram?
— Não foi um namoro normal de cinema — Natasha explicou. — Foi... intenso. Breve. Mas verdadeiro.
— Não durou muito porque... bem, a Sala Vermelha me encontrou. Eles me levaram de volta. Eles apagaram minha memória. Me reprogramaram.
— Quando eu voltei a ser eu mesma, anos depois... o Remus achava que eu tinha abandonado ele. Que eu tinha fugido. E a vida seguiu.
Emma processou a informação. O professor de Defesa Contra as Artes das Trevas e a mãe dela. O lobisomem e a espiã. Fazia sentido, de um jeito trágico.
Emma mordeu o lábio, hesitando antes de fazer a próxima pergunta.
— Mãe... você ama ele?
Ela fez uma pausa e completou rapidamente:
— Ou você ama o James? O Bucky?
Natasha soltou uma risada curta, nervosa, quase engasgada.
— Emma! Que pergunta é essa?
Ela segurou as mãos da filha.
— Claro que eu amo o James. O Bucky é... ele é meu parceiro. Meu noivo. Ele é a pessoa que me conhece por inteira, que viu o pior de mim e ficou. Eu vou casar com ele.
Emma não desviou o olhar. Ela apertou a mão da mãe.
— Eu sei, mãe. Eu vejo como vocês são.
— Mas... hoje à tarde, no jardim. Quando o Remus segurou sua mão.
Emma baixou a voz, como se estivesse contando um segredo perigoso.
— O jeito que você olhou para ele... não foi o jeito que a gente olha para um ex-namorado que superou. Parecia que... parecia que você estava lembrando de como era.
— Parecia que você estava triste.
As palavras da filha atingiram Natasha como uma agulha fina e precisa.
Natasha abriu a boca para negar, para dizer "foi só nostalgia", "foi saudade da Lily", "foi o calor do momento".
Mas ela travou.
Porque Emma estava certa.
Naquele momento, na cerca, sentindo a mão calejada de Remus, vendo o sorriso gentil dele... Natasha não tinha sentido apenas amizade.
Ela tinha sentido o eco de uma vida que foi roubada dela. Uma vida onde a Sala Vermelha não a levou. Uma vida onde talvez, apenas talvez, ela e Remus tivessem dado certo.
Ela sentiu a dor do "e se".
Natasha engoliu em seco. A certeza absoluta que ela tinha sobre tudo — sobre Bucky, sobre o casamento, sobre o futuro — tremeu. Só um pouco. Uma vibração imperceptível na estrutura de aço que ela construiu.
— O passado é complicado, Emma — Natasha disse finalmente, a voz um pouco mais rouca do que ela gostaria. — Às vezes, o amor não acaba. Ele só... muda de lugar. Ele vira memória.
— O que eu sinto pelo Remus é carinho pelo que nós fomos. O que eu sinto pelo Bucky é amor pelo que nós somos.
Ela se inclinou e beijou a testa da filha, encerrando o assunto.
— Agora vá dormir. Amanhã a Molly vai nos acordar cedo para o café da manhã.
Emma assentiu e se deitou, puxando o cobertor.
— Boa noite, mãe.
— Boa noite, querida.
Natasha apagou a vela com um sopro rápido. O quarto mergulhou na escuridão.
Ela se deitou em sua cama, olhando para o teto escuro onde as vigas de madeira rangiam.
Ela levou a mão ao peito, sentindo o coração bater.
Ela amava James Barnes. Ela sabia disso.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
