Capítulo 172

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A sala da cobertura estava mergulhada em uma penumbra dourada, iluminada apenas pelas chamas dançantes da lareira a gás e pelas luzes da cidade de Londres que brilhavam através das janelas panorâmicas, filtradas pela chuva.Emma já tinha ido dormir no seu quarto, exausta pela viagem e pela emoção de estar "em casa". O silêncio que restava era adulto, pesado e confortável.

Natasha e James estavam sentados no tapete persa felpudo, de costas para o sofá, de frente para o fogo. Uma garrafa de Château Margaux de 1996 estava aberta entre eles, respirando. Duas taças de cristal repousavam no chão. Natasha segurava sua taça pelo bojo, observando o líquido vermelho escuro girar. Ela vestia uma das camisas de flanela de James (ele adorava quando ela fazia isso) e calça de moletom. Ele estava de calça de pijama e camiseta branca, descalço.

O braço de carne de James estava apoiado no joelho dele. A mão esquerda — a de vibranium, agora aquecida pela temperatura ambiente e pelo contato com ela — acariciava o braço de Natasha. O metal frio e liso subia e descia pela pele dela, traçando o caminho das veias, sentindo a textura macia contra a rigidez da máquina. Era um toque hipnótico. Possessivo, mas delicado.

Natasha suspirou, encostando a cabeça no ombro dele. — Sabe do que eu sinto falta? — ela murmurou, tomando um gole do vinho encorpado. — De relatórios. — De relatórios padronizados da MI6. Fonte Arial 12. Espaçamento simples. Fatos. Lógica.

James soltou uma risada baixa que vibrou no peito dele contra as costas dela. — Você sente falta de burocracia, Romanoff? O mundo está acabando?

— Eu sinto falta da previsibilidade da espionagem humana, James. — Natasha explicou, olhando para o fogo. — Em uma missão da MI6 ou da SHIELD, se algo dá errado, é porque alguém traiu, ou a inteligência estava errada, ou a bomba detonou antes. É física. É causa e efeito. — Em Hogwarts... se algo dá errado, pode ser porque o alinhamento de Saturno estava ruim, ou porque um aluno espirrou na hora errada, ou porque a escada decidiu mudar de lugar. — É exaustivo. Eu sinto falta do estresse simples de desarmar uma ogiva nuclear. Pelo menos a ogiva não grita comigo em sônico.

James continuou o carinho no braço dela, os dedos de metal roçando a parte interna do cotovelo, uma zona sensível. — Entendo. Você sente falta da adrenalina controlada. Do jogo que você sabe vencer de olhos fechados.

— Exato. — Ela virou o rosto para ele, o nariz roçando no pescoço dele.

James virou a cabeça, os olhos azul-cinzentos fixos nos dela. Havia um brilho divertido ali. — E de mim? — ele perguntou, a voz caindo para aquele tom grave que fazia os joelhos dela tremerem. — Você sentiu falta do seu parceiro tático? Ou eu sou só o cara que mantém a cama quente?

Natasha sustentou o olhar. Ela ergueu uma sobrancelha, o sorriso irônico característico da Viúva Negra curvando seus lábios. — De você? — ela fingiu pensar. — Nem um pouco. Sinceramente, foi um alívio não ter ninguém roncando ou ocupando o banheiro por horas. Eu estava quase me acostumando com a vida de solteira no castelo.

James sorriu. Ele sabia ler a mentira. Ele sabia que o "não" dela significava "desesperadamente". Sem dizer nada, ele levou a mão de carne até a nuca dela, segurando com firmeza, e a puxou. O beijo foi lento. Tinha gosto de vinho tinto e saudade. Não foi urgente como na noite da chegada; foi um beijo de confirmação. Um beijo que dizia: Você mente muito mal, espiã.

Quando ele a soltou, Natasha estava sorrindo de verdade, com os olhos fechados. — Talvez eu tenha sentido falta disso. Só um pouco.

— "Só um pouco" é o suficiente para mim. — James voltou a acariciar o braço dela. — Me conte as novidades. As que não entraram nos relatórios de áudio.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora