Capitulo 90

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Apartamento de Clint Barton. Londres. 14:00.

A tarde estava cinzenta, refletindo perfeitamente o humor de Natasha. Emma estava na sala de estar com Lila e Cooper, jogando Mario Kart. O som das risadas e dos gritos das crianças ("Lila, para de jogar casco azul!") servia como uma barreira de ruído branco necessária.

Na varanda, Natasha estava debruçada no parapeito de ferro, olhando para o trânsito de Londres sem realmente vê-lo. Ela segurava uma xícara de chá que já tinha esfriado há vinte minutos.

Clint saiu pela porta de vidro, segurando uma cerveja. Ele parou ao lado dela, ombro a ombro. O Gavião Arqueiro não precisava de muitas palavras para entender quando a Viúva Negra estava prestes a explodir.

— A Emma me contou que soltou a bomba sobre a Câmara Secreta — Clint disse, casualmente, olhando para a rua. — E que o James saiu batendo porta.

Natasha suspirou, um som longo e cansado. — Ela entrou em pânico. Contou tudo. O voo de dez metros, o som dos ossos, a poça de sangue.

— Detalhes gráficos — Clint comentou, tomando um gole. — Do jeito que traumatiza qualquer um. Especialmente alguém que já se culpa por tudo, inclusive pelo aquecimento global.

Natasha girou a xícara na mão. — E antes disso, teve o pesadelo. — Ela olhou para Clint de soslaio. — Sonhei com a Sala Vermelha. Com ele. O Soldado. Me fazendo matar a Anya para provar meu valor. Eu acordei vomitando, Clint. E quando ele tentou me tocar... eu recuei. Eu vi o monstro nele.

Clint ficou em silêncio por um momento. Ele conhecia a história. Ele conhecia as cicatrizes. Ele se virou, encostando as costas no parapeito e cruzando os braços, olhando para ela com aquela franqueza brutal que só melhores amigos têm.

— Nat... — ele começou, a voz séria. — Você quer que eu minta e diga que vai ficar tudo bem, ou quer a versão sem filtro?

— Sem filtro — ela respondeu, sem hesitar.

Clint assentiu. — Vocês não têm um relacionamento normal. Vocês nunca tiveram. E honestamente? Eu não sei se conseguem ter.

Ele apontou a garrafa para ela, marcando os pontos. — Vamos para a matemática, Tasha. O cara tem cento e seis anos. A mente dele é um quebra-cabeça que foi desmontado e montado errado umas dez vezes. — E você? — Clint continuou, implacável. — Você o conheceu quando tinha onze anos. Onze. Você era uma criança sendo treinada para matar. Ele era o seu instrutor, o seu torturador e, de um jeito distorcido, a única figura paterna ou de proteção que você tinha.

Natasha apertou a porcelana da xícara. Ela sabia onde ele queria chegar.

— Aí vocês se envolveram quando você tinha quinze — Clint prosseguiu, a voz dura. — Em um ambiente onde "amor" significava dar um tiro no ombro do outro para não ter que dar na cabeça. E quando você fez vinte, ele sumiu. Ele foi congelado. Você cresceu, viveu, virou Vingadora. Ele ficou parado no tempo, sendo uma arma.

Clint suspirou, a expressão suavizando um pouco, mas não a mensagem. — Agora vocês são dois adultos tentando brincar de casinha em Londres. Panquecas, gatos, filha adolescente. É lindo na teoria. Mas a base de vocês... a fundação do que vocês são juntos... é conflito. É dor. É briga.

Ele olhou nos olhos dela. — Vocês não sabem se comunicar sem sangrar, Nat. Na Sala Vermelha, a única intimidade permitida era o combate. E é isso que vocês estão fazendo agora. Ele bate a porta, você se fecha. Ele faz drama, você fica fria. É o único padrão que vocês conhecem.

Natasha ouviu tudo em silêncio. Cada palavra de Clint era um tiro de precisão no centro do alvo. Ela olhou para o horizonte. Ela sabia que ele estava certo. A dinâmica deles era viciada em adrenalina e tragédia. Quando a paz chegava, eles não sabiam o que fazer com ela, então criavam o caos.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora