Cozinha da Cobertura. Segunda-feira de Manhã. 07:45.
O contraste na mesa de café da manhã era palpável. Emma era pura energia cinética. Ela gesticulava com uma torrada na mão, os olhos brilhando com a adrenalina residual do fim de semana na Toca. James estava sentado à cabeceira, segurando sua caneca de café com as duas mãos. Ele sorria, ouvindo a enteada, mas o sorriso não chegava aos olhos. Natasha estava do outro lado, cortando um pedaço de melão que ela não pretendia comer.
— ...e aí o Ron pegou um gnomo que mordeu o dedo dele, e ele gritou igual uma menina! — Emma contava, rindo. — Foi hilário. O jardim parecia uma zona de guerra, Bucky, você tinha que ver.
— Imagino a bagunça — James comentou, a voz calma. — Gnomos mágicos parecem... persistentes.
— Eles são! — Emma concordou, tomando um gole de suco. — Mas a mãe... nossa, a mãe foi incrível. Ela limpou metade do jardim em cinco minutos.
Emma colocou o copo na mesa e se inclinou para frente, animada. — Mas o mais legal foi ver ela e o Professor Lupin. O Remus. — Bucky, sério, parecia coreografia de filme. O Lupin pulava, a mãe agachava. Ele jogava o gnomo, ela chutava no ar. Eles nem precisavam falar! Era como se um soubesse o que o outro ia fazer antes de fazer.
James continuou sorrindo. Ele continuou olhando para Emma. Mas Natasha viu. Ela viu o exato momento em que os ombros dele, que estavam relaxados, subiram dois centímetros e travaram. Ela viu os nós dos dedos dele ficarem brancos ao redor da caneca de cerâmica.
— O Sirius ficava gritando pontos da varanda — Emma continuou, alheia à tensão que tinha acabado de criar. — Ele disse que eles eram a "Dupla Dinâmica de 81". Foi muito legal ver a mãe lutando com alguém que... sabe? Que tem o mesmo ritmo dela. Alguém daquele mundo.
A frase pairou no ar. Alguém daquele mundo. Não foi maldade. Emma estava apenas relatando fatos. Mas para James Barnes, aquilo foi um soco no estômago.
Insegurança. Não era ciúmes possessivo. Ele sabia quem Natasha era. Ele sabia que ela tinha escolhido ele, que ela usava o anel dele. Ele confiava nela com sua vida. Mas a insegurança era mais insidiosa. Era a voz sussurrada na cabeça dele dizendo: Você não faz parte disso. Ele não era bruxo. Ele não conhecia a Natasha de 1981. Ele não tinha lutado naquela guerra com ela. Havia uma parte enorme da história dela — uma parte mágica, trágica e fundamental — onde ele era um estranho. E saber que existia outro homem, um tal de "Remus", que compartilhava essa sincronia, essa linguagem corporal silenciosa e esse passado... fez James se sentir pequeno. Fez ele se sentir apenas o "trouxa" que ficava em casa.
Natasha olhou para James. Ela viu a mandíbula dele trincar levemente. Viu o olhar dele focar em um ponto vazio da mesa, perdido em pensamentos que ela sabia serem dolorosos. A fome dela desapareceu instantaneamente. O pedaço de melão no garfo parecia gesso. Ela sentiu um gosto amargo na boca, o gosto da culpa pela dúvida da noite anterior e pela dor que ela estava causando agora, mesmo sem querer.
Ela soltou o garfo no prato. O barulho de metal contra a porcelana foi um pouco alto demais.
— Bom... — Natasha disse, interrompendo o fluxo de Emma e levantando-se da cadeira abruptamente.
Emma parou de falar, olhando para a mãe. — Mãe? Você nem comeu.
— Perdi a fome — Natasha mentiu, pegando seu prato e levando para a pia. Ela precisava sair dali. O ar na cozinha estava sufocante. Ela não conseguia olhar para a mágoa silenciosa de James na frente da filha.
Ela se virou, apoiando as mãos na bancada por um segundo para se recompor, antes de virar de volta com sua máscara profissional de Diretora. — E eu recebi um alerta no celular agora pouco. Tenho que ir para o MI6 mais cedo. — Um caso antigo que precisa ser finalizado. Papelada de Budapeste.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
