Capitulo 34

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A morfina estava começando a passar, e a realidade estava voltando como cacos de vidro.
Natasha tentou se ajeitar na cama, mas um gemido escapou de seus lábios antes que ela pudesse contê-lo. Parecia que o teto de concreto ainda estava em cima dela, esmagando suas costelas a cada respiração.
— Ei, devagar — disse Steve, levantando-se da cadeira num pulo e colocando a mão no ombro dela para impedir que ela se movesse. — Você tem pontos internos, Nat. Não force.
Natasha piscou, a visão clareando. Ela olhou para Steve, depois para Emma, que estava sentada na ponta da cama, segurando a barra de metal com os nós dos dedos brancos.
E então, o instinto de espiã atropelou a dor.
Natasha olhou para a porta do quarto. Tinha uma janela de vidro. Qualquer um passando no corredor poderia ver. Médicos. Enfermeiras. Agentes da S.H.I.E.L.D. Infiltrados.
— Emma... — A voz de Natasha saiu rouca, urgente. — Quem te trouxe?
— O Agente Coulson. E o Professor Snape — respondeu Emma, com a voz pequena.
— Coulson é confiável. Snape é... complicado. — Natasha tentou calcular as variáveis, mas sua cabeça latejava. — Alguém mais te viu? Alguém tirou fotos? Você usou seu nome verdadeiro na recepção?
Emma franziu a testa, confusa com o interrogatório repentino.
— Nat, eu... eu não sei. Eu só queria ver você.
— Você não pode estar aqui — disse Natasha, tentando soar firme, mas a voz falhou. — Paris é uma zona de guerra agora. A I.M.A. sabe que estamos aqui. Se eles souberem que você está aqui...
O pânico subiu pela garganta de Natasha. Seus inimigos adorariam saber que a Viúva Negra tinha um ponto fraco de onze anos.
— Você tem que ir embora — decretou Natasha, olhando para Steve. — Steve, tire ela daqui. Agora.
Emma se levantou num salto, como se tivesse levado um tapa.
— O quê? Não! Eu acabei de chegar!
— Emma, me escuta! — Natasha tentou se levantar, mas a dor a jogou de volta no travesseiro, fazendo-a arfar. O monitor cardíaco disparou. — Isso aqui não é seguro. Eu sou um alvo. Se você ficar perto de mim, você vira um alvo.
— Eu não me importo! — gritou Emma.
— Mas eu me importo! — Natasha reuniu toda a força que tinha. — Hogwarts é uma fortaleza. Tem magia antiga. Tem o Dumbledore. É o único lugar onde eu sei que ninguém pode te tocar. Você precisa voltar pra lá. Hoje. Agora.
Steve olhou para Natasha, vendo o terror genuíno nos olhos dela. Não era rejeição. Era proteção desesperada

— Eu não tenho mais ninguém! — chorou ela. — O Harry tem os pais na memória... mas eu lembro de você. Eu só tenho você. Eu fiquei com tanto medo... tanto medo de nunca mais te ver brigar comigo por causa de bagunça.
Ela agarrou a mão de Natasha, apertando forte, chorando sobre os lençóis brancos.
— Não me manda embora porque é perigoso. Eu sou uma bruxa. Eu posso me defender. Mas eu não posso me defender de ficar sozinha.
O silêncio caiu no quarto, pesado e sufocante.
A dureza de Natasha se partiu. O medo tático foi substituído por uma dor no coração que nenhuma morfina curava. Ela olhou para a menina chorando em seu braço. A menina que tinha atravessado dois países só para segurar a mão dela.
Natasha soltou o ar, derrotada. As lágrimas escorreram pelo rosto dela também, misturando-se ao suor e à fuligem.
— Ah, Little Red... — sussurrou Natasha.
Com o braço livre de tubos, ela puxou Emma para perto, ignorando a dor aguda nas costelas. Emma se aninhou no espaço entre o braço de Natasha e seu corpo, chorando copiosamente.
Natasha enterrou o rosto nos cabelos ruivos da filha.
— Desculpa — sussurrou Natasha. — Desculpa. Eu só... eu fiquei com tanto medo de não conseguir te proteger.
— Você me protege ficando viva — soluçou Emma.
Steve observava do outro lado, limpando os próprios olhos discretamente. Ele viu Natasha beijar o topo da cabeça de Emma repetidas vezes, sussurrando promessas em russo e inglês.
O quarto estava mais calmo agora. Apenas o som rítmico do monitor cardíaco e a chuva batendo levemente na janela parisiense preenchiam o silêncio.
Emma já tinha parado de chorar, mas continuava sentada na beirada da cama, segurando a mão de Natasha com as duas mãos, como se a soltasse, a mãe pudesse desaparecer.
Natasha respirou fundo. Doeu, mas era uma dor suportável. Ela precisava ter essa conversa agora, enquanto a morfina a deixava lúcida o suficiente e o medo de Emma estava sob controle.
— Emma — chamou Natasha, a voz baixa e rouca.
Emma levantou os olhos vermelhos e inchados.
— Eu não quero ir — sussurrou a menina, antecipando o assunto.
— Eu sei. E eu não quero que você vá. — Natasha apertou fraco a mão dela. — Se o mundo fosse perfeito, estaríamos em Nova York comendo pipoca. Mas o mundo não é perfeito, e Paris... Paris não é lugar para você agora.
Natasha tentou se ajeitar, fazendo uma careta de dor. Steve, que estava encostado na parede vigiando a porta, deu um passo à frente instintivamente, mas Natasha ergueu a mão, sinalizando que estava bem. Ela precisava fazer isso sozinha.
— Escuta, Little Red. Eu preciso que você use aquela sua cabeça brilhante agora. A cabeça que a Hermione admira e que o Chapéu Seletor quase colocou na Sonserina.
Emma fungou, prestando atenção.
— Olhe para mim — pediu Natasha, gesticulando para o próprio corpo cheio de fios. — Eu estou quebrada, Emma. Meus reflexos estão zero. Se alguém entrasse por aquela porta agora querendo machucar você... eu não conseguiria fazer nada além de gritar.
Emma abaixou a cabeça, entendendo a brutalidade daquela verdade.
— Eu sei que o Steve está aqui — continuou Natasha, olhando brevemente para o Capitão. — E o Clint também. Mas a minha mente... a minha mente não desliga se você estiver aqui. Eu vou ficar monitorando cada barulho no corredor, cada enfermeira que entra, cada sombra na janela.
Natasha soltou a mão de Emma para tocar o rosto da filha.
— O corpo humano precisa de descanso para se curar, Emma. Principalmente o meu. Se eu ficar preocupada com a sua segurança, meu corpo não vai focar na cura. Ele vai ficar em alerta de combate. E eu vou demorar o dobro do tempo para sair dessa cama.
Emma olhou para Natasha. A lógica era impecável. Era cruel, mas era verdade.
— Então... eu sou uma distração? — perguntou Emma, a voz trêmula.
— Não — corrigiu Natasha, firme. — Você é a coisa mais preciosa que eu tenho. E por ser preciosa, você é meu maior ponto vulnerável. Meus inimigos sabem disso.
Natasha respirou fundo, olhando nos olhos verdes da filha.
— Hogwarts é o lugar mais seguro do mundo mágico. Dumbledore é o único bruxo que os caras maus temem. Se você estiver lá, atrás daquelas muralhas, comendo torta de abóbora e aprendendo a levitar penas... eu posso fechar os olhos e dormir. Eu posso me permitir apagar e deixar os médicos me consertarem, porque eu vou saber que ninguém pode te tocar.
Emma ficou em silêncio por um longo momento. Ela olhou para as próprias mãos, depois para o rosto cansado da mãe. Ela viu as olheiras profundas, a palidez. Ela percebeu que Natasha estava lutando para manter os olhos abertos apenas para garantir que ela estava bem.
Ficar ali era egoísmo. Natasha precisava de paz.
Emma suspirou, um som maduro demais para uma menina de onze anos.
— Você tem razão — admitiu Emma, a voz pequena. — Se eu ficar, você não dorme.
— Exato.
— E eu não quero que você demore para sarar. Eu quero você inteira de novo.
— Então me ajude — pediu Natasha. — Me ajude indo para onde é seguro.
Emma assentiu, resignada, mas convencida.
— Tá bom. Eu volto com o Coulson amanhã.
Natasha sentiu uma onda de alívio tão grande que seus ombros relaxaram visivelmente na cama.
— Obrigada, Emma.
— Mas temos condições — disse Emma, levantando o dedo indicador, lembrando a negociadora que Natasha era.
Natasha sorriu fraco.
— Estou ouvindo.
— Um: Você tem que me escrever. Ou pedir pro Steve escrever se você não conseguir segurar a caneta. Todo dia. Nem que seja uma linha dizendo "estou viva".
— Fechado — disse Natasha. — Steve?
— Eu prometo — disse Steve, da porta. — Relatório diário.
— Dois: — continuou Emma. — Nada de missões até o Natal. Você vai ficar de molho.
— Os médicos já garantiram isso — disse Natasha, apontando para o gesso na perna sob o lençol que Emma não tinha visto. — Eu não vou a lugar nenhum tão cedo.
— E três... — Emma hesitou, depois se inclinou e beijou a bochecha da mãe. — Você tem que prometer que vai tentar não ser heroína por um tempo. Deixa o Capitão América fazer isso.
Natasha olhou para Steve e sorriu.
— Prometo. Vou deixar o Rogers carregar o escudo sozinho.
Emma parecia satisfeita. Ela se levantou da cama, ajeitando o uniforme amassado.
— Eu vou para o hotel com o Coulson agora. Ele disse que ia me esperar na recepção. Você precisa dormir.
— Você é uma boa garota, Emma — disse Natasha, os olhos pesando. — A melhor.
— Eu sei. Tive uma boa professora.
Emma caminhou até a porta. Ela parou na frente de Steve.
O Capitão América olhou para a menina. Ele viu a força dela. A coragem de deixar a mãe para trás pelo bem maior.
— Cuida dela, Steve — pediu Emma, séria. — Não deixa ela pular da cama.
— Pode deixar, agente — disse Steve, prestando uma continência de brincadeira, mas com respeito real. — Eu protejo o forte aqui. Você protege o forte lá.
Emma sorriu, deu uma última olhada para a mãe na cama — que já estava cedendo ao sono agora que a ansiedade tinha passado — e saiu do quarto.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou. Mas era um silêncio diferente. Não era mais carregado de pânico. Era um silêncio de cura.
Steve caminhou até a cadeira ao lado da cama e se sentou. Ele pegou a mão de Natasha, que já estava relaxada no sono.
— Ela é incrível, Nat — sussurrou ele para a sala vazia. — Exatamente como você.
Natasha não respondeu. Pela primeira vez em vinte e quatro horas, a Viúva Negra dormia profundamente, sabendo que sua filha estava a caminho da segurança e que havia um sentinela loiro velando seu sono.

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