Capitulo 106

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O zumbido da escova de dentes elétrica era o único som no banheiro de mármore branco. Natasha olhava para o próprio reflexo no espelho, mas não via seu rosto. Ela via uma caverna em Dover. Via um homem desesperado que assinava cartas com uma pata de cachorro.

Ela cuspiu a espuma na pia, enxaguou a boca e desligou a escova. O silêncio voltou, pesado. Ela passou o creme noturno no rosto mecanicamente, os movimentos lentos, os olhos verdes distantes. A decisão já estava tomada, mas comunicá-la a James Barnes era a parte difícil. Ele era a retaguarda dela, sim, mas ele também era o cão de guarda mais superprotetor da história.

Ela apagou a luz do banheiro e entrou no quarto.

Apenas o abajur do lado de James estava aceso, lançando uma luz âmbar sobre os lençóis de algodão egípcio. James estava deitado, recostado na cabeceira, usando seus óculos de leitura (que ele insistia em negar que precisava, mas usava mesmo assim). Um livro grosso de espionagem da Guerra Fria estava aberto em seu colo, mas ele não virava a página há dez minutos.

Ele sentiu a mudança na atmosfera assim que ela entrou. Natasha caminhou até o lado dela da cama. Ela não se deitou imediatamente. Ela sentou na borda, de costas para ele, olhando para as próprias mãos.

— Ele marcou um encontro — ela disse. A voz saiu baixa, quase sumindo no edredom.

James fechou o livro devagar. Ele tirou os óculos e os colocou no criado-mudo. — Quando? — ele perguntou. A calma na voz dele era falsa. Era a calma antes da tempestade.

— Dia 27. Meia-noite. — Natasha respondeu, ainda sem olhar para ele. — Numa caverna costeira perto de Dover.

— Dover — James repetiu, analisando a tática. — Terreno difícil. Rotas de fuga pelo mar. Isolado. Perfeito para uma emboscada.

— Ou perfeito para alguém que não quer ser visto por Dementadores — Natasha rebateu, finalmente girando o corpo para encará-lo.

— Você não vai — James disse. Simples assim. Não foi um pedido. Foi um fato.

Natasha estreitou os olhos. A "Viúva Negra" acordou. — Desculpe? Eu acho que ouvi você me dando uma ordem, Sargento.

— Eu estou te dando um choque de realidade, Natasha! — James sentou-se na cama, a voz subindo um tom. — O homem é instável. Ele explodiu doze pessoas. Ele invadiu a sua mente com uma carta sentimental para te atrair para um lugar isolado no meio da noite. É a armadilha mais velha do livro!

— Eu conheço ele, James! — Natasha aumentou o tom, a frustração transbordando. — Eu vivi com ele. Eu sei quem ele é. O Sirius que eu conheci jamais machucaria uma mosca se não fosse para proteger a família dele.

— O Sirius que você conheceu existiu há treze anos! — James argumentou, passando a mão pelo rosto, exasperado. — Azkaban muda as pessoas, Nat. Eu sei. A Hydra muda as pessoas. Você não sabe quem vai estar naquela caverna. Pode ser o seu amigo, ou pode ser um lunático querendo vingança contra o mundo.

— É um risco que eu tenho que correr — Natasha disse, firme. — Se ele for inocente... se ele for a vítima... então nós estamos deixando um homem bom apodrecer enquanto o verdadeiro assassino dorme com a nossa filha. Eu preciso olhar nos olhos dele, James. Eu preciso saber.

James olhou para ela. Ele viu a determinação inabalável nos olhos verdes. Ele conhecia aquele olhar. Era o olhar de "eu vou fazer isso, com ou sem você". Ele bufou, jogando a cabeça para trás contra o travesseiro, olhando para o teto por um segundo. Ele estava furioso, mas sabia que não podia prendê-la.

Ele voltou a olhar para ela. O olhar dele mudou. Ficou duro. Tático.

— Tudo bem — ele disse.

Natasha piscou, surpresa pela rendição rápida. — Tudo bem?

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora