A chuva de Londres não caía; ela agredia. Era uma tempestade fria e implacável que transformava as docas do leste da cidade em um labirinto de sombras oleosas e reflexos distorcidos.
Steve Rogers, o Capitão América, agachado atrás de um contêiner enferrujado, limpou a água dos olhos. Seu uniforme azul tático estava escurecido pela umidade, e o escudo vibrava levemente em seu braço, reagindo à tensão estática no ar.
— Isso não se parece com nenhuma operação da HYDRA que eu já vi — sussurrou Steve pelo comunicador. — Eles não têm patrulhas. Não têm holofotes. É silencioso demais.
— É porque eles não estão esperando um exército, Capitão — a voz de Natasha Romanoff surgiu em seu ouvido, límpida e calma, como se ela estivesse sentada numa poltrona tomando chá, e não pendurada de cabeça para baixo em uma viga de aço a trinta metros de altura, dentro do armazém alvo. — Eles estão esperando fantasmas. E fantasmas não fazem barulho.
Steve olhou para cima, para o teto de vidro sujo do velho armazém vitoriano que o MI6 indicara como o epicentro da anomalia energética.
— Qual é a sua posição? — perguntou ele.
— Estou dentro. Alvo visualizado. — Natasha fez uma pausa. — E você tinha razão, Steve. Definitivamente não são humanos comuns. Eles estão usando máscaras de metal e carregam bastões que brilham com a mesma energia azul que o Tesseract.
— Chitauri?
— Não. Parecem... cultistas. Eles estão entoando algo em volta de um artefato no centro do galpão. O MI6 disse que a energia era instável. Se eles ativarem aquilo, metade de Londres vai virar uma cratera.
— Estou entrando — disse Steve, ajustando o escudo. — Pela porta da frente. Vou chamar a atenção.
— Clássico Rogers — Natasha riu, um som curto. — Seja o martelo, Capitão. Eu serei o bisturi.
Steve não esperou. Ele correu em direção aos portões de carga do armazém. Com um movimento fluido, ele lançou o escudo. O disco de vibranium cortou o ar, atingiu as dobradiças de aço maciço com um CLANG ensurdecedor e ricocheteou de volta para a mão dele. O portão caiu para dentro com um estrondo.
— S.H.I.E.L.D.! — gritou Steve, parando na entrada, uma figura imponente contra a tempestade. — Afastem-se do dispositivo!
Dentro do galpão, cerca de vinte figuras encapuzadas se viraram. No centro, sobre um altar improvisado feito de caixotes de munição, uma pedra negra pulsava com veios de luz azulada.
Os cultistas não se renderam. Eles ergueram suas armas estranhas — lanças tecnológicas que zumbiam.
— Matem o intruso! — gritou o líder.
E o inferno começou.
Steve avançou, bloqueando três disparos de energia simultâneos com o escudo. O impacto o fez deslizar para trás, as botas rasgando o concreto.
— Eles têm poder de fogo pesado! — alertou Steve, lançando o escudo contra dois atiradores.
— Estou vendo — respondeu Natasha.
Foi então que Steve viu a Viúva Negra em ação, não em vídeos de arquivo ou em treinamentos, mas em combate real.
Enquanto os cultistas focavam no "grande alvo azul" na porta, Natasha desceu do teto. Ela não usou uma corda. Ela usou a gravidade e uma corrente solta de um guindaste.
Ela aterrissou no meio de um grupo de cinco inimigos que flanqueavam Steve.
Antes que o primeiro pudesse virar a arma, Natasha já estava em movimento. Era rápido demais para acompanhar. Ela girou, varrendo as pernas do primeiro homem, usou o impulso para subir nas costas do segundo e disparou seus "Widow's Bites" — braceletes de eletrochoque — diretamente no pescoço do terceiro.
Três homens caíram convulsionando em menos de dois segundos.
Os outros dois tentaram atirar. Natasha se abaixou, desviando de um raio de energia que passou a milímetros de seu cabelo ruivo, e rolou para frente. Ela sacou dois bastões táticos de suas costas, energizou-os com eletricidade azul e golpeou as articulações dos joelhos dos atacantes. O som de ossos quebrando se misturou ao zumbido elétrico.
Steve, do outro lado do galpão, derrubou um oponente com um soco direto e olhou de relance.
Ele sempre soube que ela era boa. Mas aquilo... aquilo era arte. Era uma dança letal onde cada movimento tinha um propósito terminal. Não havia desperdício de energia. Ela fluía entre os inimigos como água, usando a força deles contra eles mesmos.
Um gigante — provavelmente um mercenário modificado geneticamente — surgiu das sombras, segurando um martelo de demolição. Ele avançou contra Natasha pelas costas.
— Nat! Atrás de você! — gritou Steve, preparando-se para lançar o escudo.
Mas Natasha não precisou de ajuda. Ela sentiu o deslocamento de ar.
Sem olhar, ela se jogou para trás, deslizando de joelhos por entre as pernas do gigante. Enquanto passava por baixo dele, ela ativou uma mina adesiva e a colou na parte interna da coxa do homem.
Ela saiu do outro lado, levantou-se num salto e caminhou calmamente para longe.
BUM.
O gigante caiu, urrando, a perna inutilizada pela explosão controlada.
Natasha parou ao lado de Steve, os bastões crepitando, o cabelo molhado grudado no rosto, a respiração apenas levemente acelerada.
— Você disse "martelo", Capitão — disse ela, com um sorriso de canto. — Mas acho que eu quebrei o dele.
Steve olhou para os corpos espalhados ao redor dela.
— Os arquivos não fazem justiça a você, Romanoff.
— Elogios depois. O dispositivo.
Eles correram para o centro. A pedra negra estava pulsando violentamente agora. O ar cheirava a ozônio e algo mais antigo... enxofre?
Natasha sacou um scanner portátil.
— As leituras estão fora de escala. Não é tecnologia humana. E não parece Chitauri.
— Podemos desligar? — Steve estendeu a mão para tocar, mas Natasha bateu na mão dele.
— Não toque! Se isso for uma bomba de antimatéria ou um portal instável, seu toque pode detonar Londres inteira.
De repente, o chão tremeu. Mais cultistas surgiram nas passarelas superiores. Eram dezenas.
— Estamos em desvantagem numérica e tática — analisou Steve rapidamente. — E não podemos desarmar essa coisa sob fogo cruzado.
Natasha olhou para o dispositivo. A luz azul estava ficando cegante.
— Está entrando em massa crítica. Vai explodir. Ou vai nos sugar.
— Recuar? — perguntou Steve, odiando a palavra.
— Sobreviver — corrigiu Natasha. — Para lutar amanhã.
Ela tirou um disco prateado do cinto e o jogou na base do dispositivo.
— O que é isso? — gritou Steve sobre o barulho dos disparos inimigos que recomeçavam.
— Um jammer de frequência da S.H.I.E.L.D. Vai atrasar a detonação ou a ativação por alguns minutos. É tudo o que temos. Corra!
Steve levantou o escudo para cobrir Natasha enquanto eles corriam em direção a uma janela lateral. Ele atravessou o vidro com o ombro, protegendo-a, e eles caíram no beco escuro e chuvoso do lado de fora, rolando no asfalto molhado.
Atrás deles, dentro do armazém, um som agudo, como um grito eletrônico, foi ouvido, seguido por um flash de luz que iluminou o bairro inteiro. Mas não houve explosão de fogo. O prédio apenas... estremeceu, e a luz se apagou.
— O jammer funcionou — ofegou Natasha, levantando-se e verificando se tinha todos os membros. — Mas não resolveu. Só comprou tempo.
— Precisamos sair daqui antes que a polícia metropolitana ou mais daqueles caras apareçam — disse Steve. — Temos que reagrupar.
— Conheço um lugar — disse Natasha, limpando o sangue de um corte na testa. — Uma casa segura do MI6 a três quarteirões. Vamos.
Casa Segura do MI6, Lambeth
O "lugar seguro" era um apartamento no subsolo de uma lavanderia 24 horas. Cheirava a mofo, sabão em pó barato e negligência.
Havia apenas um sofá velho, uma mesa com um kit de primeiros socorros e uma pequena cozinha. As janelas eram pintadas de preto.
Natasha entrou, trancou a porta com três ferrolhos diferentes e ativou um dispositivo de varredura de escutas. Só depois de ver a luz verde é que ela relaxou os ombros.
Ela jogou a jaqueta molhada numa cadeira e foi direto para a pia, jogando água fria no rosto.
Steve estava sentado no sofá, tirando as botas táticas. Ele observava Natasha. Ela estava vibrando. Não de medo, mas de adrenalina acumulada. Ela andava de um lado para o outro, desmontando e limpando suas Glocks com movimentos mecânicos e rápidos.
— Nat — chamou Steve.
— O dispositivo está em loop — murmurou ela, ignorando-o. — Se a frequência for quântica, o jammer dura quatro horas. Precisamos contatar o Fury. Precisamos de uma equipe de contenção. Talvez o Stark. Se aquilo for mágico, talvez a gente precise...
— Natasha — Steve falou mais alto, num tom de comando suave.
Ela parou e olhou para ele.
— O quê?
— Você está sangrando.
Natasha tocou a testa. O corte estava aberto novamente.
— É superficial.
— Sente-se. Deixe-me ver.
Natasha hesitou, mas a autoridade calma de Steve era difícil de resistir. Ela se sentou na cadeira em frente a ele. Steve abriu o kit médico com mãos firmes. Ele limpou o ferimento dela com álcool. Natasha nem piscou com a ardência.
— Você foi incrível lá hoje — disse Steve, colocando um curativo borboleta no corte. — Eu já vi muitos soldados bons. Mas você... você luta como se estivesse jogando xadrez e boxe ao mesmo tempo.
— Obrigada, Cap. Vindo de você, isso vale alguma coisa.
Steve terminou o curativo e se recostou.
— Agora, a parte difícil. Você precisa dormir.
Natasha riu, seca.
— Sem chance. Temos quatro horas até o jammer pifar. Eu vou monitorar as frequências do rádio da polícia e...
— Eu vou monitorar — interrompeu Steve. — Eu sou um supersoldado, lembra? Meu metabolismo lida com a falta de sono melhor que o seu. Você está acordada há... quanto tempo? Trinta horas?
— Trinta e seis — corrigiu ela. — Eu aguento setenta e duas.
— Você aguenta. Mas não devia. — Steve olhou nos olhos dela. Havia uma preocupação genuína ali, algo que Natasha não estava acostumada a ver em parceiros de missão. — Você está exausta, Nat. Seus olhos estão vermelhos. Suas mãos estão tremendo levemente. Se voltarmos para lá, eu preciso de você 100%. Não 60%.
Natasha olhou para suas mãos. Elas estavam tremendo. Não de cansaço, mas daquela ansiedade constante, daquela sensação de que ela tinha esquecido algo importante.
— Eu não gosto de dormir — admitiu ela, baixo.
— Pesadelos? — adivinhou Steve.
— Memórias. Ou a falta delas.
Steve suspirou.
— Eu entendo. Quando eu fecho os olhos, às vezes ainda ouço as bombas da guerra. Ou vejo o gelo. — Ele sorriu, triste. — Mas você está segura aqui. Eu vou ficar na porta. Nada entra sem passar por mim e pelo escudo. Pode descansar. Uma hora. Eu te acordo.
Natasha olhou para o sofá velho. Seu corpo gritava por descanso. A presença de Steve — sólida, confiável, indestrutível — era a única coisa que a fazia considerar a proposta. Ele era o oposto da S.H.I.E.L.D.; ele não tinha agendas ocultas.
— Uma hora — negociou ela. — Nem um minuto a mais.
— Prometo.
Natasha deitou-se no sofá, cobrindo-se com sua jaqueta seca. Ela manteve uma faca debaixo da almofada, por hábito.
— Boa noite, Nat.
— Boa noite, Steve.
O som da chuva lá fora e a respiração constante de Steve vigiando a sala a embalaram. Natasha fechou os olhos. E, contra sua vontade, a escuridão a levou.
Não houve transição suave. Num momento ela estava na sala mofada em Londres, no outro, ela estava no parque ensolarado.
O sonho começou igual. O cheiro de chá. O sol quente.
Lilian estava lá. Rindo. Feliz.
— Você vai ser a madrinha, não vai? — perguntou Lilian, tocando o nariz de Natasha.
— Eu? Madrinha? — Natasha riu no sonho. — Lily, eu mal sei cuidar de uma planta.
— Você sabe cuidar de quem ama. É o que importa.
Então, o céu escureceu.
O vento frio soprou as folhas secas. O rosto de Lilian se contorceu em terror.
— Nat... ele está aqui.
A casa em Godric's Hollow apareceu ao redor delas, explodindo. Lilian agarrou os ombros de Natasha. Suas unhas rasgando a pele, o sangue escorrendo.
— VOCÊ PROMETEU! — gritou Lilian. — SALVE A EMMA!
A luz verde veio. Avada Kedavra. A morte brilhante.
Natasha tentou se mover, tentou sacar a arma, mas suas mãos estavam amarradas por fios vermelhos. Ela viu Lilian cair. Viu o berço. Viu uma bebê ruiva chorando, estendendo os bracinhos para ela.
E então, viu a si mesma. Mais jovem. Na Sala Vermelha. Sendo amarrada a uma cadeira. Uma luz forte nos olhos.
— Apaguem — disse uma voz russa fria. — Apaguem a missão Potter. Apaguem a amizade. Deixem apenas a soldado.
— NÃO! — gritou a Natasha do sonho. — Eu preciso lembrar! Eu preciso proteger ela!
— PROTEJA ELA! — o grito de Lilian se misturou ao seu.
A luz verde a engoliu.
— Haaah!
Natasha acordou num solavanco, puxando o ar como se estivesse se afogando.
Ela se sentou no sofá, o coração disparado a mil por hora, o suor frio escorrendo pelas costas. A faca já estava em sua mão antes mesmo que ela abrisse os olhos completamente.
— Steve! — chamou ela, ofegante. — Steve, temos que...
Ela parou.
A sala estava na penumbra, iluminada apenas por uma luz fraca que vinha... de uma varinha?
Steve Rogers estava sentado na cadeira onde ela o vira pela última vez. Mas ele não estava vigiando. Ele estava com a cabeça tombada para o lado, o queixo no peito, dormindo num sono profundo e antinatural. O escudo estava caído aos seus pés.
E, sentado na outra cadeira, de frente para ela, estava a figura mais incongruente possível para uma casa segura do MI6.
Albus Dumbledore estava lá, usando vestes de um azul meia-noite, examinando com curiosidade uma das granadas de luz de Natasha que estava sobre a mesa.
Ele parecia tranquilo, como se estivesse esperando um ônibus, e não invadindo o esconderijo de dois Vingadores.
Natasha baixou a faca, mas não a soltou. Sua respiração ainda estava irregular por causa do pesadelo, as imagens de Lilian morta ainda queimando em sua retina.
Ela olhou para Steve apagado. Olhou para o velho bruxo.
A adrenalina da missão, o cansaço de 36 horas, o terror do pesadelo e a pura audácia daquele velho de aparecer ali se misturaram em um único sentimento.
Não foi medo. Não foi raiva. Foi uma exaustão cósmica.
Natasha soltou o ar com força, jogou a cabeça para trás e revirou os olhos para o teto mofado.
— Ai, que saco! — reclamou ela, a voz carregada de irritação. — Vocês não cansam de me perseguir?
Dumbledore sorriu, deixando a granada na mesa com delicadeza.
— Boa noite, Natasha. Vejo que o sono não foi reparador. Talvez devêssemos conversar sobre o que você viu?
Natasha olhou para ele, a faca girando entre os dedos.
— Se você não acordar o Capitão em cinco segundos, eu vou usar isso para fazer a barba do seu queixo, Dumbledore.
— Justo — concordou o bruxo, calmamente. — Mas antes... acho que você quer saber por que Lilian Evans continua gritando nos seus sonhos, não quer?
Natasha congelou. A irritação sumiu. O frio na barriga voltou.
— Como você sabe?
— Porque, minha cara — Dumbledore se inclinou para frente, os olhos azuis perfurando a alma dela —, nós dois estamos assombrados pelo mesmo fantasma. E eu vim aqui para que possamos, finalmente, deixá-la descansar.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
