Os alunos do primeiro ano estavam aglomerados na escadaria de mármore, esperando a Professora McGonagall voltar. A grandiosidade do castelo deixava a maioria boquiaberta, mas Emma Potter Romanoff estava ocupada analisando as saídas de emergência e a acústica do local, hábito herdado da mãe.
Foi nesse momento de silêncio tenso que uma voz arrastada e arrogante cortou o ar.
— Então é verdade o que disseram no trem. Harry Potter veio para Hogwarts.
Draco Malfoy, um menino pálido com cabelos loiros excessivamente lambidos para trás, abriu caminho entre a multidão. Ele parou na frente de Harry, com dois brutamontes (Crabbe e Goyle) logo atrás.
— Este é Crabbe e este é Goyle — disse Malfoy, com desdém. — E eu sou Malfoy. Draco Malfoy.
Ron Weasley soltou uma risadinha abafada. Malfoy virou-se para ele como uma víbora.
— Acha meu nome engraçado, é? Nem preciso perguntar o seu. Cabelo ruivo, vestes de segunda mão... você deve ser um Weasley.
Malfoy voltou-se para Harry, estendendo a mão pálida.
— Você logo vai descobrir que algumas famílias de bruxos são melhores que outras, Potter. Você não vai querer se misturar com o tipo errado. Eu posso te ajudar nisso.
Harry olhou para a mão estendida, pronto para recusar, mas não precisou.
Uma mão menor, mas firme, interceptou o gesto. Não para apertar a mão de Malfoy, mas para empurrá-la para o lado com um movimento seco e humilhante de descarte.
Emma deu um passo à frente, colocando-se entre Harry e Draco. Ela não parecia brava. Ela parecia entediada. E isso era muito pior.
— "Tipo errado"? — repetiu Emma, a voz calma, mas projetada para que todos ouvissem. — Curioso você dizer isso, considerando sua postura.
Malfoy franziu a testa, ofendido.
— Quem você pensa que é?
— Alguém que sabe ler linguagem corporal — disse Emma, inclinando a cabeça levemente, imitando a postura analítica de Natasha. — Você fala alto para compensar insegurança. Anda com dois guarda-costas porque tem medo de confronto direto. E insulta a roupa dos outros para desviar a atenção do fato de que você está tremendo.
Emma apontou para a mão de Malfoy, que de fato tremia levemente de nervosismo.
A multidão inteira olhou. Malfoy ficou vermelho instantaneamente, tentando esconder a mão nas vestes.
— Eu não estou tremendo! — sibilou ele. — Minha família é...
— Sua família te ensinou a comprar respeito, não a conquistá-lo — cortou Emma, implacável. — E aqui vai um conselho grátis, Draco: liderança não é sobre quem tem o sangue mais puro. É sobre quem tem coragem de ficar na frente quando o perigo aparece. E pelo jeito que você recuou quando eu dei um passo à frente...
Emma sorriu, um sorriso frio que faria Natasha orgulhosa.
— ...você seria o primeiro a correr.
A risada que explodiu entre os alunos foi brutal. Malfoy parecia ter encolhido dez centímetros. Ele abriu a boca para responder, mas o olhar verde e penetrante de Emma o fez travar. Ele nunca tinha visto uma menina de onze anos olhar para ele como se ele fosse um alvo, não uma pessoa.
— Mantenha sua "ajuda" para você — finalizou Emma, virando as costas para ele. — Meu irmão já tem os melhores amigos que ele poderia querer.
Harry e Ron olhavam para ela como se ela fosse um super-herói. Hermione parecia estar tomando notas mentais da técnica de debate.
McGonagall voltou, batendo um pergaminho no ombro de Malfoy para que ele saísse do caminho.
— Estamos prontos para vocês.
O Salão Principal e o Chapéu Seletor.
O teto encantado mostrava um céu estrelado magnífico, mas Emma mal notou. Sua mente estava focada no banquinho de três pernas e no chapéu velho e remendado que cantava.
A cerimônia começou.
— Hermione Granger!
— GRIFINÓRIA!
— Draco Malfoy!
O chapéu mal tocou a cabeça dele.
— SONSERINA!
— Ronald Weasley!
— GRIFINÓRIA!
— Harry Potter!
Houve murmúrios. O chapéu demorou um pouco com Harry, mas logo gritou:
— GRIFINÓRIA!
E então, o salão ficou em silêncio quando McGonagall chamou:
— Emma Potter Romanoff!
Emma caminhou até o banco. Ela sentiu os olhos de todos nela. Ela se sentou e McGonagall colocou o chapéu em sua cabeça. Ele era grande demais e caiu sobre seus olhos, mergulhando-a na escuridão.
"Hmm," disse uma voz pequena e antiga em seu ouvido. "Interessante. Muito interessante."
Emma segurou as bordas do banco.
"Vejo duas histórias aqui," continuou o Chapéu. "Uma de sangue e magia antiga... os Potter. Bravura, lealdade, sacrifício. Mas vejo outra coisa. Uma criação diferente. Vejo treinamento. Vejo sombras."
O Chapéu parecia vasculhar as memórias dela com a mãe.
"Você aprendeu a observar antes de agir. Você aprendeu que a sobrevivência é a prioridade. Você tem uma mente afiada, menina. Calculista. Ambiciosa. Você quer provar para o mundo que é forte. Que ninguém pode te machucar de novo."
"Isso é sonserina," sussurrou o Chapéu, tentador. "A casa das cobras faria de você uma lenda. Você tem a astúcia de uma espiã, herdada não pelo sangue, mas pelo amor daquela que te criou. Na Sonserina, você aprenderia a usar essa astúcia para dominar."
Não, pensou Emma com força. Não quero dominar. Quero proteger.
"Proteger..." ponderou o Chapéu. "Mas para proteger, às vezes é preciso ser implacável. E eu vejo que você sabe ser implacável. A maneira como lidou com o garoto Malfoy lá fora... pura eficiência sonserina."
O tempo passava. Um minuto. Dois minutos. O salão começou a murmurar. Um "Hatstall" (empate do chapéu) era raro.
"Você se daria bem entre as cobras," insistiu o Chapéu. "Você tem os instintos da Viúva Negra. Por que negar isso?"
Porque a minha mãe me ensinou a lutar para que eu pudesse escolher a paz, respondeu Emma mentalmente. Ela luta nas sombras para que eu possa viver na luz. Eu quero ser corajosa como ela. Não astuta como ela. Corajosa.
O Chapéu parou. Ele pareceu surpreso com a clareza daquele pensamento.
"Você quer honrar a coragem dela, não a tática," compreendeu o Chapéu. "Você tem o coração da sua mãe de sangue, Lilian, e a garra da sua mãe de coração, Natasha. Uma combinação perigosa... e magnífica."
O Chapéu suspirou em sua mente.
"Eu ainda acho que a Sonserina te levaria à grandeza. Mas não posso ignorar esse fogo. Essa vontade de se colocar na frente do perigo pelos outros. Muito bem. Se é a luz que você escolhe..."
O Chapéu abriu a boca (ou o rasgo na borda) e gritou para o salão silencioso:
— GRIFINÓRIA!
A mesa dos leões explodiu em aplausos, mais altos do que para qualquer outro. Harry estava de pé, batendo palmas furiosamente. Fred e George assobiavam.
Emma tirou o chapéu, sentindo as pernas tremerem de alívio. Ela olhou para a mesa da Sonserina. Malfoy estava de braços cruzados, olhando para ela com ódio. Emma apenas sorriu e piscou para ele — um gesto puramente Natasha — antes de correr para se sentar ao lado de Harry e Hermione.
— Pensei que você ia virar cobra — disse Ron, dando um tapa nas costas dela.
— O chapéu tentou — admitiu Emma, servindo-se de suco de abóbora. — Mas eu disse a ele que leões mordem mais forte.
E enquanto o banquete começava, Emma tocou o bolso onde guardava a adaga que Natasha lhe dera. Ela era uma Grifinória, sim. Mas era uma Grifinória treinada pela Viúva Negra. E Hogwarts nunca tinha visto nada igual
O lugar não existia nos mapas. Se você procurasse no Google Earth, veria apenas um borrão verde de floresta. Mas para Natasha Romanoff, aquela casa de fazenda branca com a varanda de madeira era o único lugar no mundo, além de Hogwarts e do apartamento em Nova York, onde ela podia baixar a guarda completamente.
Eram 21h00. O ar da noite estava cheio de grilos e cheiro de grama cortada.
Na sala de estar, iluminada apenas por um abajur amarelado, a Viúva Negra não estava segurando uma Glock ou interrogando um espião.
Ela estava segurando uma bebê de bochechas rosadas e cabelos castanhos ralos.
Lila Barton, com pouco mais de um ano, estava aninhada no colo de Natasha, brincando distraidamente com o zíper da jaqueta de couro da "Tia Nat".
Natasha olhava para a menina com uma suavidade que assustaria seus inimigos. Ela balançava a perna ritmicamente, ninando a bebê.
— Você cresceu, Lila-bug — sussurrou Natasha, deixando a bebê segurar seu dedo indicador com a mãozinha gordinha. — Daqui a pouco vai estar correndo atrás do Cooper e atirando flechas de ventosa no gato.
Laura Barton, a esposa de Clint (e a única civil que Natasha respeitava tanto quanto o Nick Fury), entrou na sala com um sorriso cansado, mas feliz.
— Ela não quer dormir? — perguntou Laura.
— Ela está lutando bravamente — respondeu Natasha, sorrindo. — Puxou a teimosia do pai.
— Deus me livre — riu Laura, estendendo os braços. — Vem cá, princesa. A Tia Nat precisa descansar. E o papai está lá na varanda abrindo uma garrafa que ele diz que estava guardando para o fim do mundo.
Natasha entregou Lila com cuidado, beijando a testa macia da bebê.
— Boa noite, pequena arqueira.
Laura levou a bebê para o andar de cima. Natasha ficou parada por um segundo, ouvindo o silêncio da casa. Era diferente do silêncio de seu apartamento. Lá, o silêncio era solitário (até a chegada da Emma). Aqui, o silêncio era cheio de vida.
Ela caminhou até a porta da varanda e saiu.
Clint Barton estava sentado nos degraus da varanda, descalço, vestindo uma camisa de flanela velha e jeans. Ao lado dele, havia uma garrafa de bourbon e dois copos.
Ele olhou para ela quando a porta de tela bateu. O rosto dele ainda tinha algumas marcas roxas da batalha de Nova York, mas os olhos estavam limpos. O azul elétrico de Loki tinha sumido completamente.
— Ela dormiu? — perguntou Clint.
— Laura a levou. Ela tentou roubar meu zíper antes de ir.
Clint riu, servindo os dois copos generosamente.
— Senta aí, Romanoff.
Natasha sentou-se ao lado dele no degrau de madeira. O ombro dela encostou no dele. Era um toque familiar, seguro. O toque de quem já dividiu trincheiras, paraquedas e agora, varandas.
Clint passou o copo para ela.
— À Nova York — brindou ele.
— Às baleias espaciais — completou Natasha, batendo o copo no dele.
Eles beberam. O bourbon era forte, queimando a garganta do jeito certo.
— Como está a Emma? — perguntou Clint, olhando para as estrelas.
— Ótima. Hogwarts. Grifinória. Já deve estar quebrando umas três regras da escola enquanto conversamos.
— Bom. Criança que não dá trabalho não tem história pra contar. — Clint tomou um gole longo. — E você? Como está a vida em Nova York?
Natasha girou o gelo no copo, um sorriso de canto aparecendo.
— Interessante. O apartamento é bom. A vizinhança é tranquila. E... tenho tido companhia.
Clint parou o copo no meio do caminho. Ele conhecia aquele tom de voz.
— Companhia? — Ele se virou, semicerrando os olhos. — Que tipo de companhia? Alvo ou civil?
— Aliado — corrigiu Natasha, tomando um gole para esconder o sorriso divertido. — Um certo Capitão que não sabe usar um micro-ondas, mas é muito útil para outras coisas.
Clint engasgou com o bourbon. Ele tossiu, batendo no próprio peito, e olhou para ela com os olhos arregalados.
— Rogers? — ele guinchou. — Você e o Picolé?
Natasha deu de ombros, tranquila.
— Aconteceu depois da batalha. Adrenalina, bebida, sobrevivência... você sabe como é.
— A Viúva Negra e o Capitão América — Clint balançou a cabeça, rindo incrédulo. — Isso vai virar capa de revista. Ele pediu você em namoro? Ele já comprou alianças? Porque ele é desse tipo, Nat. O cara é de 1940.
Natasha riu, balançando a cabeça negativamente.
— Não, Clint. Nada disso. Deixamos as coisas bem claras.
Ela olhou para o horizonte, a expressão ficando mais pragmática.
— Ele é ótimo, não me leve a mal. Ele é doce, honrado, tem um corpo que desafia a lógica... mas é só isso. É físico. É conveniente.
— Amigos com benefícios? — sugeriu Clint.
— Exatamente. — Natasha suspirou, relaxada. — Eu preciso descarregar o estresse. Ele precisa... bem, ele passou setenta anos no gelo. Estamos nos ajudando.
— E não tem... sentimento? — Clint sondou, protetor. — Você sabe que o Rogers é coração mole.
— Nós nos respeitamos, Clint. Somos amigos. Mas... — Natasha hesitou, procurando a palavra certa. — Ele é "luz" demais, entende? Ele é todo certinho, todo esperança e bandeira estrelada.
Ela olhou para o fundo do seu copo, onde o líquido âmbar girava.
— Eu gosto dele. É divertido. Mas eu não vejo um futuro. Falta... não sei. Falta aquela compreensão do que é ter sangue nas mãos de verdade. O Steve é um herói. Eu sou uma espiã. A gente brinca de casinha de vez em quando, mas eu não vou me apaixonar por ele.
Clint assentiu, entendendo perfeitamente.
— É, faz sentido. Você sempre gostou dos casos complicados. O Rogers é simples demais pra você.
— Exato. Ele é baunilha. Uma baunilha muito gostosa e fortificada com soro, mas baunilha. — Natasha riu. — E eu gosto de sabores mais complexos.
Clint levantou o copo num brinde.
— Bom, contanto que você esteja se divertindo e ninguém saia machucado... saúde. Use e abuse do Super Soldado. Alguém tem que fazer isso.
— Pode deixar — Natasha brindou. — É um ótimo exercício cardio.
Eles riram, a tensão se dissipando.
— Mas sério, Nat — disse Clint, ficando um pouco mais sério. — Fico feliz que você não esteja sozinha. Mesmo que seja só diversão. Você merece relaxar.
— Eu estou bem, Clint. Tenho a Emma. Tenho meu trabalho. E tenho um Capitão América para as noites de tédio. O que mais eu poderia querer?
Enquanto ela bebia, uma brisa fria soprou do bosque. Natasha sentiu um arrepio súbito, não de frio, mas uma sensação fantasma. Uma memória de um braço de metal e de um inverno rigoroso que ela tentava esquecer, mas que estava sempre à espreita.
Ela afastou o pensamento. O Soldado Invernal era um fantasma. Steve Rogers era real e estava quente em Nova York.
Por enquanto, isso bastava.
— Enche meu copo, Barton — pediu ela. — E me conta como a Laura fez a Lila dormir tão rápido, porque eu preciso dessa tática com a Emma.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
