Capítulo 175

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O eco dos gritos de Natasha parecia ainda vibrar nas paredes revestidas de isolamento acústico, embora o silêncio já tivesse retomado o controle da sala. O ar estava pesado, carregado com a eletricidade estática de verdades brutais que ficaram escondidas por tempo demais.

Natasha estava sentada na cadeira de couro giratória, os cotovelos apoiados na mesa de carvalho, o rosto escondido entre as mãos. Ela respirava devagar, contando mentalmente para forçar seu ritmo cardíaco a descer dos perigosos 140 batimentos por minuto para um nível humano. A raiva, aquela chama branca e quente que a impulsionou durante a discussão, estava se dissipando, deixando para trás apenas uma exaustão cinzenta e profunda. Seus ossos doíam. A memória da tortura de Dreykov, trazida à tona com tanta vividez, fazia seus dedos formigarem onde eles tinham sido quebrados meses atrás.

Ela levantou a cabeça devagar. Seus olhos verdes estavam vermelhos, inchados, sem a maquiagem impecável de espiã para esconder a vulnerabilidade. Ela olhou para o copo de cristal na mesa. Ainda restavam dois dedos de Beluga. Com a mão trêmula, ela pegou o copo e virou o líquido de uma vez só. O álcool gelado queimou o fundo da garganta, um fogo controlado para apagar o fogo emocional. Ela bateu o copo na mesa com um som final. Clack.

Natasha girou a cadeira levemente para encarar Yelena. Yelena não tinha se movido. Ela estava encostada na estante de livros, os braços cruzados apertados contra o peito, como se tentasse segurar os próprios pedaços para que não caíssem no chão. O rosto dela estava pálido, os olhos azuis fixos no tapete persa, a arrogância habitual completamente desmantelada pela revelação do sacrifício da irmã.

— Vou perguntar de novo — Natasha disse. A voz dela saiu rouca, baixa, desprovida da fúria anterior, restando apenas um cansaço pragmático. — E dessa vez, eu quero a verdade, sem sarcasmo, sem defesas, sem piadas sobre bolsos. Ela olhou nos olhos da irmã. — O que você quer, Yelena?

Yelena levantou o olhar. Não havia mais a máscara da "Tia Legal". Havia apenas uma mulher jovem que tinha sido usada como arma desde a infância e que, pela primeira vez, não tinha uma missão. Ela soltou um suspiro trêmulo, os ombros caindo. — Paz — Yelena sussurrou. A palavra saiu frágil, quase quebrando no ar. — Eu só quero paz, Natasha. — Eu fecho os olhos e vejo sangue. Eu tento dormir e ouço ordens. Eu tento viver e não sei como. — Eu vim aqui porque... porque você é a única pessoa no mundo que conseguiu sair e construir algo que não fosse morte. Eu queria saber como. Eu queria saber se dava pra consertar o que tem dentro da minha cabeça.

Natasha fechou os olhos por um breve momento, absorvendo a dor da irmã. Ela conhecia aquela dor. Ela tinha vivido com ela por anos antes de Clint Barton lhe dar uma chance. Antes dos Vingadores. Antes de James. Antes de Emma.

Natasha passou as mãos pelo rosto e depois puxou o cabelo para trás, prendendo-o num coque improvisado, num gesto de quem se prepara para trabalhar. — Você quer saber como eu consegui? — Natasha perguntou, olhando para a varinha que estava sobre a mesa. — Eu não consegui sozinha. E eu não consegui fugindo. — Eu encontrei algo maior que eu mesma para proteger.

Ela pegou a varinha de Espinheiro-Negro. — Você perguntou sobre a magia. Sobre como é possível. — A genética... a linhagem mágica... sempre esteve lá. Adormecida. Suprimida pelos soros da Sala Vermelha, pelo trauma, pela esterilização. — Mas quando eu encontrei a Emma... — A expressão de Natasha suavizou, um brilho diferente surgindo em seus olhos cansados. — Quando eu a tirei daquele armário... algo mudou. — Não foi só instinto materno, Yelena. Foi biológico. O amor por ela... a necessidade absoluta de protegê-la... reescreveu meu DNA. Acordou a magia que estava latente. — A minha magia é feita de proteção. Ela existe por causa da Emma.

Natasha levantou-se e caminhou até a janela do escritório, olhando para a neve que caía lá fora, cobrindo Londres. — E é por isso que eu não sei quando vou voltar — ela disse, a voz distante. — Essa guerra que eu estou lutando lá na Escócia... não é minha guerra. Eu sou russa. Eu não dou a mínima para a política bruxa britânica. — Mas é a guerra dela. É o mundo dela. — E enquanto houver uma ameaça respirando na direção da minha filha, eu vou estar lá, na linha de frente, com essa varinha e com qualquer arma que eu precise usar. — Eu não posso voltar para a MI6 agora. Eu não posso voltar para a vida de Vingadora em tempo integral. Eu não tenho tempo.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora