Sala de Estar. 22:30.
A maratona de filmes tinha acabado. Os créditos subiam na tela da TV, iluminando a sala escura com uma luz azulada intermitente. No sofá, Emma estava apagada. Ela dormia de boca aberta, babando levemente na almofada, as pernas em um nó adolescente impossível.
James se levantou. Com uma delicadeza que contradizia suas décadas de violência, ele passou o braço de metal por baixo dos joelhos de Emma e o braço de carne pelas costas dela. Ele a levantou como se ela não pesasse nada. Emma resmungou algo sobre "pipoca" e acomodou a cabeça no ombro dele.
— Vou levá-la — James sussurrou. Natasha assentiu, seguindo-o apenas com o olhar até o corredor.
Quando James saiu do quarto da menina, fechando a porta com cuidado, ele encontrou Natasha encostada no batente da porta do escritório dela — a "Sala Vermelha" de Londres. James parou.
— Eu preciso fazer algo, Nat — ele disse, a voz baixa. — Não posso ficar aqui o dia todo fazendo panquecas. Eu preciso ser útil. Vou procurar um emprego.
Natasha descruzou os braços. — O MI6 tem programas. Posso fazer uma ligação.
— Não — James cortou, balançando a cabeça. — Sem cordas. Sem favores da namorada Diretora. Se eu conseguir algo, quero que seja por mérito do James Barnes, não porque o Soldado Invernal é assustador.
Natasha sorriu, orgulhosa da teimosia dele. — Tudo bem. Mérito próprio.
Ela estendeu a mão para ele, mas a expressão dela mudou. Ficou séria. Cirúrgica. — Vem. A gente precisa conversar. Agora.
Eles voltaram para a sala. Natasha sentou-se no sofá e James sentou-se ao lado, mas mantendo uma distância segura. Ele sentia a mudança na atmosfera.
Natasha olhou para ele, para o perfil cansado iluminado pela luz da cidade.
— Eu vi — ela disse. Simples. Direta. James virou o rosto para ela, confuso.
— Viu o quê?
— A audiência. O julgamento todo. — Natasha confessou, sem desviar o olhar. — Eu hackeei o feed de segurança interno do tribunal de Haia. Eu vi você naquela caixa de vidro blindado. Eu ouvi o Promotor Vogel lendo a lista.
A cor sumiu do rosto de James. Ele recuou fisicamente para o canto do sofá, como se a proximidade dele pudesse queimá-la.
— Você... você ouviu tudo? — a voz dele foi um sussurro horrorizado.
— Tudo — Natasha confirmou, impiedosa. — Os duzentos e doze nomes. Tóquio. O cientista em Berlim. A bomba no carro em Bogotá. Detalhes que nem a S.H.I.E.L.D. tinha nos arquivos criptografados.
James cobriu o rosto com as mãos, curvando-se sob o peso da vergonha. Ele queria esconder aquela parte dela. Ele queria ser apenas o homem que fazia panquecas.
— Eu não queria que você visse o monstro com a luz acesa — ele disse, a voz abafada.
Natasha se inclinou, mas não para consolar. Para confrontar. — Eu vi o monstro, James. Mas eu vi outra coisa. — Ela puxou as mãos dele do rosto, forçando-o a olhar para ela. Os olhos dela estavam intensos. — Eu vi o momento em que eles te pressionaram sobre Odessa.
James engoliu em seco. — Nat...
— O promotor perguntou quem era a testemunha. — Natasha continuou, a voz subindo um tom. — Ele perguntou quem era a mulher que você hesitou em matar. Ele disse que, se você desse o nome dela, se você trouxesse uma testemunha de caráter de alto nível para corroborar que você tinha humanidade, a pena poderia ser reduzida.
Ela apertou os pulsos dele. — Você sabia que eu era a Diretora do MI6 agora. Você sabia que uma palavra minha, um depoimento meu dizendo "ele me poupou", teria encerrado aquele julgamento em cinco minutos.
— Eu não podia — James disse, balançando a cabeça freneticamente.
— Por que não? — Natasha exigiu, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e emoção. — Por que você ficou calado? Por que você aceitou ser chamado de mentiroso pelo promotor em vez de dizer o meu nome? Você preferia apodrecer na prisão a me pedir ajuda?
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
