Suíte Principal. 03:45 da Manhã.
A cidade de Londres dormia lá fora, um silêncio raro cobrindo as ruas de Kensington. Dentro do quarto, a única luz vinha da lua cheia que entrava pela fresta da cortina, desenhando uma faixa prateada sobre os lençóis desfeitos.
Os dois estavam nus, aninhados sob o edredom pesado.
Natasha estava deitada de bruços, o rosto virado para o lado, os olhos abertos observando a penumbra. O anel de Alexandrita em seu dedo brilhava, capturando a pouca luz existente.
A mão de carne de Bucky percorria as costas dela em um ritmo hipnótico. Dedos longos e quentes traçavam a linha da coluna vertebral, subindo até a nuca e descendo até a curva da cintura, venerando cada cicatriz, cada músculo relaxado.
O toque era calmante, mas a mente de Natasha não estava calma. O pedido de casamento tinha sido perfeito. O dia tinha sido perfeito.
Mas a perfeição a assustava. A felicidade parecia frágil, algo que o universo adorava tirar dela quando ela baixava a guarda.
— James? — ela chamou, a voz saindo num sussurro rouco que quebrou o silêncio da madrugada.
— Hum? — ele respondeu, sonolento, beijando o ombro nu dela.
Natasha hesitou. Ela mordeu o lábio inferior, sentindo o peso da pergunta.
— Você tem certeza disso?
Ela girou o anel no dedo com o polegar.
— Certeza de que quer casar comigo?
A mão de Bucky parou no meio das costas dela.
O sono desapareceu da voz dele instantaneamente.
Ele se moveu, deitando-se de lado, apoiando a cabeça na mão para poder olhar o rosto dela. Com a outra mão, ele tirou suavemente uma mecha de cabelo ruivo que caía sobre os olhos dela.
— Por que você está perguntando isso agora, Nat? — ele perguntou, suave, mas sério. — Você acha que eu brinco com coisas assim?
Natasha suspirou, virando-se para ficar de barriga para cima, mas evitando o olhar dele. Ela olhou para o teto.
— Porque casamento é... é sobre construir um futuro. É sobre família.
Ela engoliu o nó na garganta. Era a conversa que ela temia. A ferida que nunca cicatrizava totalmente.
— Você sabe que eu sou um fim de linha, James.
Ela virou o rosto para encará-lo, os olhos verdes brilhando com lágrimas não derramadas.
— A Sala Vermelha... eles tiraram isso de mim. Eles me abriram e tiraram tudo. Eu nunca vou poder te dar um filho. Eu nunca vou poder te dar uma família "de verdade".
— Você podia ter isso com outra pessoa. Uma vida normal. Filhos biológicos. Sangue do seu sangue.
Bucky ouviu em silêncio. Ele viu a dor crua nos olhos dela, a insegurança que nem todo o treinamento do mundo conseguia esconder.
Ele não argumentou imediatamente.
Ele estendeu a mão e a colocou no rosto dela. O polegar acariciou a maçã do rosto, enxugando uma lágrima solitária que escapou.
— Natasha — ele disse, a voz firme, ancorando-a. — Olha para mim.
Ela olhou.
— Eu tenho mais de cem anos — ele começou, um sorriso triste e doce nos lábios. — Eu já vi o mundo mudar mil vezes. Eu já perdi tudo o que eu tinha.
— Eu não estou procurando biologia. Eu não estou procurando legado genético.
Ele se inclinou e beijou a testa dela.
— Eu amo a Emma — ele sussurrou contra a pele dela. — Ela é minha filha. Não importa o DNA. Ela é nossa. Nós já temos uma família. Uma família estranha, bagunçada, com traumas e superpoderes... mas é nossa.
Ele se afastou um pouco para olhar nos olhos dela de novo.
— E se eu tiver a certeza, a absoluta certeza, de que vou passar o resto da minha vida acordando ao seu lado... eu não preciso de mais nada.
— Você não é um fim de linha, Nat. Você é o meu destino. Você é a minha vida inteira. Eu não quero filhos com outra pessoa. Eu quero você. Só você.
Natasha sentiu o peito apertar, mas dessa vez de alívio.
Ele falava a verdade. Ela sabia, pelos batimentos cardíacos dele, pelo jeito que ele a olhava. Para o Soldado Invernal, ela e Emma eram o mundo. E isso bastava.
Ela esticou o pescoço e o beijou. Um beijo lento, salgado pelas lágrimas, mas cheio de uma gratidão imensa.
— Eu te amo — ela murmurou contra a boca dele. — Obrigada.
Bucky sorriu, beijando-a de volta, e depois voltou a se deitar, puxando-a para que ela repousasse a cabeça no peito dele. O braço de metal a envolveu, protegendo-a do mundo e dos próprios medos.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, ouvindo a respiração um do outro.
Bucky, sentindo que o clima pesado tinha passado, decidiu mudar o rumo.
— Falando em futuro... — ele começou, desenhando círculos no braço dela. — Novembro está chegando.
Natasha gemeu, escondendo o rosto no peitoral dele.
— Não começa.
— O que você vai querer fazer para o seu aniversário? — ele insistiu, divertido. — 36 anos, Romanoff. É uma data importante.
Natasha bufou.
— Eu prefiro fingir que isso não está acontecendo.
Ela levantou a cabeça para olhar para ele com uma falsa expressão de ameaça.
— Vamos combinar o seguinte: a gente esquece que eu estou ficando velha, e eu esqueço que você é tecnicamente um fóssil centenário.
Bucky riu alto, o som ecoando no quarto escuro.
— Combinado. Nada de festa de 36 anos.
Ele a apertou mais forte.
— Mas eu vou comprar bolo. E você não pode me impedir.
— Se for de chocolate... eu aceito o risco da velhice — ela murmurou, fechando os olhos, sentindo-se segura, amada e pronta para enfrentar qualquer idade, desde que fosse ao lado dele.
Quarto de Emma. Quarta-feira. 08:15.
Natasha abriu a porta do quarto da filha silenciosamente, equilibrando-se na ponta dos pés.
O quarto de Emma era um organismo vivo. A cada retorno de Hogwarts, ele sofria uma metamorfose.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
