O silêncio voltou ao quarto da Ala Médica, mas agora ele pesava toneladas.
Natasha passou as costas da mão nos olhos, limpando as lágrimas com um movimento brusco e irritado. Ela odiava chorar. Chorar embaçava a visão. Chorar era ineficiente. Mas a avalanche de memórias de Lilian Potter tinha sido devastadora demais para conter.
Ela respirou fundo, trêmula, forçando o ar a entrar em seus pulmões machucados, tentando reconstruir suas barreiras de controle.
Ela olhou para Dumbledore. O velho bruxo permanecia sentado, observando-a não com julgamento, mas com uma espécie de cálculo esperançoso.
— Agora que você sabe... — começou Natasha, a voz ainda rouca, mas firme. — E agora que eu sei... o que acontece?
Dumbledore entrelaçou os dedos sobre o colo, pensativo.
— A Emma está segura com os Weasleys, por enquanto. Molly a ama como uma filha e Hogwarts será um refúgio. — Ele fez uma pausa, olhando profundamente nos olhos de Natasha. — Mas os Weasleys, por mais bondosos que sejam, não são o que Lilian escolheu. Eles não têm o vínculo de sangue. Eles não têm a promessa.
Dumbledore se inclinou levemente para frente.
— Talvez seja a hora de considerarmos uma mudança de arranjo, Natasha. Talvez o lugar de Emma Potter não seja na Toca, mas com a madrinha que a mãe dela escolheu. Com você.
Natasha recuou na cama como se ele tivesse lhe oferecido uma granada sem pino. Os olhos dela se arregalaram em choque genuíno.
— Você... você está sugerindo que eu fique com ela? Que eu a traga para morar comigo?
— O vínculo é poderoso — argumentou Dumbledore, calmamente. — A magia de proteção que Lilian deixou seria amplificada mil vezes ao seu lado. Você é a guardiã natural dela.
— Não — a palavra saiu rápida, dura, cortante. Natasha balançou a cabeça, uma negativa veemente. — Não, não e não. Você perdeu o juízo, velho?
— Natasha...
— Olhe para mim, Dumbledore! — Natasha apontou para si mesma, para as faixas em seu peito, para a arma no coldre pendurado na cadeira. — Eu não sou a Lilian. Eu não sou uma mãe que faz biscoitos e tricota suéteres. Eu sou uma assassina.
Ela riu, uma risada seca e amarga que doeu em suas costelas quebradas.
— O Clint me resgatou, sim. Eu luto pelos "mocinhos" agora, sim. Mas isso não limpa o meu passado. A minha conta... o meu "ledger"... ele não só pinga vermelho. Ele jorra sangue. É uma cachoeira de sangue que eu nunca vou conseguir estancar.
Natasha olhou para suas mãos, vendo fantasmas de todas as vidas que tirou.
— Eu tenho inimigos em todos os continentes. A KGB. A HYDRA. Mercenários. Cartéis. Se eu trouxer a Emma para a minha vida... eu não vou estar protegendo ela. Eu vou estar pintando um alvo nas costas dela.
A voz dela falhou, revelando o medo profundo que a consumia.
— A Lilian achava que eu era segura porque ela só conheceu a Natalia de 15 anos ou a estudante de arte. Ela não conhecia a Viúva Negra. Ela não sabia que tudo o que eu toco... morre ou se machuca. O lugar mais seguro para a Emma é longe de mim.
Ela se recostou, exausta, fechando a expressão.
— Deixe-a com os Weasleys. Deixe-a ter uma infância. Eu não vou arrastá-la para o meu inferno.
Dumbledore ouviu o desabafo em silêncio. Ele viu a lógica fria da espiã, mas também viu o autodesprezo da mulher ferida.
Ele se levantou devagar, alisando as vestes cinzas.
— Você argumenta com a lógica da guerra, Natasha. E, taticamente, você tem seus pontos. O seu mundo é perigoso.
Ele caminhou até a porta, mas parou com a mão na maçaneta, virando-se para ela uma última vez.
— Mas você parte do pressuposto de que a presença dela seria apenas um fardo, ou que você seria apenas uma ameaça.
— É o que os fatos dizem — retrucou Natasha.
— Os fatos dizem que você a ama — disse Dumbledore, suavemente. — E o amor é uma magia mais potente que qualquer bala ou bomba que a HYDRA possa inventar.
Ele sorriu, um sorriso enigmático por trás da barba prateada.
— Você tem medo que ela traga a morte para perto de você, ou que você leve a morte até ela. Mas eu sugiro que você considere outra possibilidade, minha cara. A possibilidade de que ela não traga perigo... mas que ela traga cor para a sua vida.
Natasha piscou, pega de surpresa pela frase. Cor. O vermelho do cabelo. O verde dos olhos. O dourado da poção.
— Pense nisso — disse Dumbledore.
E então, sem abrir a porta, sem aviso, ele girou nos calcanhares. Houve um som seco — CRAQUE — e o espaço onde ele estava ficou vazio.
Natasha ficou sozinha no quarto de hospital.
O monitor cardíaco continuava bipando. Bip. Bip. Bip.
Ela olhou para o lugar vazio.
Cor para a minha vida.
Natasha olhou para o teto cinza. Sua vida era monocromática. Era segura assim. Era funcional. Mas era vazia.
Ela fechou os olhos e, pela primeira vez consciente e sem bloqueios, permitiu-se sentir o vínculo. O fio dourado pulsando em seu peito, conectando-a à menina.
Ela tinha dito não. Ela tinha recusado a proposta de Dumbledore por segurança. Mas agora, com a memória de Lilian viva e o coração de Emma batendo em sincronia com o seu à distância, Natasha percebeu que a decisão lógica estava começando a perder a guerra para a necessidade desesperada de não ser mais apenas uma arma.
A Ala Médica do MI6, localizada nos subsolos fortificados do edifício em Vauxhall Cross, em Londres, tinha protocolos de segurança que fariam a maioria dos espiões chorar. Guardas do SAS na porta, sensores de movimento nos corredores e câmeras térmicas.
Mas para Natasha Romanoff, aquilo era apenas um quebra-cabeça de domingo.
Trinta minutos depois que Dumbledore desapareceu, o leito 4 estava vazio. Natasha tinha hackeado o sistema de monitoramento cardíaco usando um fio desencapado de uma lâmpada e a bateria do relógio, colocando o sinal em loop. Ela roubou o uniforme de um enfermeiro noturno distraído, passou pela segurança fingindo ser da equipe de limpeza (com um sotaque cockney impecável) e saiu pela saída de lixo dos fundos, desaparecendo na neblina londrina.
Ela odiava hospitais. Mas odiava ainda mais a sensação de estar exposta em território estrangeiro.
Ela não foi para seu apartamento. Não foi para a base da S.H.I.E.L.D.
Ela usou um favor antigo de um piloto de carga que lhe devia a vida em Madri e embarcou num voo não registrado que cruzou o Atlântico naquela mesma madrugada.
Uma Fazenda no Missouri, EUA. Noite Seguinte.
A casa de campo estava escura e silenciosa, cercada apenas pelo som dos grilos e pelo vento suave nas plantações de milho. Era o lugar mais secreto da vida de Clint Barton. O único ponto cego nos satélites do Nick Fury.
Uma batida soou na porta da frente. Não foi forte, nem urgente. Foi ritmada, um código específico. Toc-toc... toc.
Luzes se acenderam na varanda.
A porta se abriu. Laura Barton apareceu, vestindo um robe felpudo sobre o pijama, segurando um taco de beisebol com firmeza. Mas, assim que viu quem estava parada no tapete de boas-vindas, ela baixou a guarda imediatamente.
— Jesus, Nat... — suspirou Laura.
Natasha parecia um fantasma. Pálida, com olheiras profundas e segurando o lado do corpo onde as costelas quebradas gritavam de dor após a viagem transatlântica. Ela usava uma jaqueta civil larga por cima das bandagens do hospital do MI6.
— Desculpe a hora, Laura — disse Natasha, a voz fraca. — Eu... eu fugi dos britânicos. Não sabia para onde ir.
— Entra. Agora. — Laura a puxou para dentro, trancando a porta contra a noite.
A casa estava quente. Cheirava a família.
— O Cooper? — perguntou Natasha, preocupada em acordar o menino que dormia no andar de cima.
— Capotado. Nem um furacão acorda ele — garantiu Laura. Ela olhou para a postura curvada de Natasha. — Costelas?
— E cabeça. E alma.
Laura não fez perguntas. Ela era esposa de um agente, sabia ler os silêncios. Ela guiou Natasha até a mesa da cozinha de madeira maciça.
Sem dizer uma palavra, Laura foi até o armário, pegou uma garrafa de whisky e dois copos. Ela colocou tudo na mesa, serviu uma dose generosa para a amiga e beijou a testa suada de Natasha.
— Vou acordar o Clint. E depois vou voltar para a cama e fingir que não vi duas das pessoas mais perigosas do mundo bebendo na minha cozinha.
— Obrigada, Laura. Você é um anjo.
— Eu sei. Alguém tem que equilibrar essa casa.
Laura subiu as escadas. Minutos depois, passos pesados e apressados desceram.
Clint Barton entrou na cozinha. Ele vestia uma calça de moletom e uma camiseta cinza, o cabelo loiro todo amassado. Ele esfregava os olhos, mas assim que viu Natasha, o sono evaporou.
Ele se sentou na cadeira à frente dela.
— O Fury está tendo um ataque cardíaco, sabia? — disse Clint, calmamente. — O MI6 ligou dizendo que a "paciente de alta prioridade" evaporou de Londres. Eles acharam que você tinha sido sequestrada.
— Eu precisava sair de lá, Clint. — Natasha virou o copo de whisky de um gole só. O álcool queimou, mas ajudou a anestesiar a dor física.
— O que aconteceu, Nat? — Clint inclinou-se para frente, a expressão séria. — E não me venha com "missão cumprida". O Steve me ligou. Disse que você estava falando coisas estranhas sobre velhos e limões antes de apagar.
Natasha olhou para o fundo do copo vazio. Ela suspirou, cansada. Um cansaço que ia até os ossos.
— Eu vi, Clint. O Dumbledore... ele foi até o hospital.
— O mago?
— Sim. Ele tirou o bloqueio da minha mente.
— O bloqueio da Sala Vermelha?
— Sim. — Natasha levantou os olhos marejados para o melhor amigo. — Eu lembrei, Clint. Eu conhecia a mãe dela. Eu conhecia a Lilian Potter.
Clint ficou em silêncio, processando a informação. Ele sabia que a história da Natasha era cheia de buracos negros, mas isso...
— Como? — perguntou ele.
— Londres. Anos atrás. Antes de você me achar. — Natasha começou a contar.
Ela contou sobre o sorvete. Sobre a promessa de dedinho. Sobre a poção de sangue. Sobre como ela tentou desertar para proteger a afilhada e como a Madame B. a capturou e fritou seu cérebro para que ela esquecesse.
— Eles arrancaram ela de mim, Clint — disse Natasha, com raiva, a voz embargada. — Me fizeram esquecer que eu tinha alguém. Me fizeram esquecer que eu jurei proteger aquela menina.
Clint estendeu a mão e cobriu a mão dela, apertando firme.
— Isso explica muita coisa — disse ele, suavemente. — Quando eu fui enviado para te matar, Nat... eu vi algo em você. Eu não sabia o que era. Mas você não parecia apenas uma assassina fria. Parecia alguém que estava... desesperada por uma conexão.
— Eu estava — sussurrou ela. — Eu estava tentando voltar para a Lilian, mesmo sem saber.
— E agora você lembrou.
— Agora eu lembrei. E dói pra caramba. — Natasha passou a mão no rosto. — O Dumbledore... ele perguntou se eu queria ver a Emma.
— E o que você disse?
— Eu fugi. — Natasha riu, amarga. — Atravessei um oceano para fugir.
— Por que, Nat?
— Porque eu sou tóxica, Clint! — A voz dela subiu um tom, ecoando na cozinha silenciosa. — Olha para mim! Eu estou sangrando em cima da mesa da sua esposa. Eu tenho inimigos que fariam fila para me matar. Se eu trouxer aquela menina para perto... eu vou ser a causa da morte dela. A Lilian achava que eu podia proteger, mas a Lilian conheceu a Natalia de 15 anos. Ela não conheceu a Viúva Negra.
Clint esperou ela terminar. Ele não se abalou. Ele conhecia aquele lado dela melhor do que ninguém.
— Você terminou? — perguntou ele.
Natasha assentiu, ofegante.
— Ótimo. Agora me escuta. — Clint olhou nos olhos dela. — Você não é a mesma pessoa que saiu da Sala Vermelha. Você salvou o mundo, Nat. Várias vezes. Você me salvou.
Ele apontou para o peito dela.
— Você diz que é perigosa. E é. Mas o mundo é perigoso, Nat. E aquela menina... se ela é tão especial quanto você diz, ela vai precisar de alguém perigoso do lado dela. Alguém que saiba lutar nas sombras.
Clint serviu mais um pouco de bebida para ela.
— O que você escolher, eu te apoio. Se você quiser ir lá e ser a madrinha, eu cubro sua retaguarda. Se você quiser ficar longe, eu te ajudo a vigiar de longe. Mas não tome a decisão baseada no medo de quem você era. Tome a decisão baseada em quem você é.
Natasha olhou para Clint. Ele era sua âncora.
— O que eu faço, Clint? — perguntou ela, a voz pequena.
— Agora? Agora você vai subir. O quarto de hóspedes está pronto. A Laura já deve ter colocado toalhas limpas. Você precisa dormir, Nat. Dormir de verdade. Sem pesadelos.
Natasha se levantou devagar, sentindo o peso do mundo sair um pouco de seus ombros.
— Obrigada, Clint.
— Para de agradecer. É isso que família faz.
Natasha subiu as escadas. Família.
Ela tinha a família do Clint. E agora, ela sabia que tinha outra família esperando na Inglaterra.
Ela entrou no quarto, tirou as botas e a jaqueta molhada, e se deitou. O cheiro de campo e segurança a envolveu.
Pela primeira vez em meses, Natasha Romanoff fechou os olhos e não viu a Sala Vermelha. Ela viu apenas um par de olhos verdes esperando na janela.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
