A porta da Ala Médica se abriu com um baque surdo, empurrada pelo pé de uma bota de couro.
Harry e Emma, que estavam desenhando em papéis de rascunho com canetas que uma enfermeira tinha emprestado, pularam de susto. Mas o medo evaporou no instante em que viram a montanha de sacolas coloridas flutuando em direção a eles, carregadas por um par de braços invisíveis por trás do volume.
Natasha Romanoff entrou no quarto, soltando o ar com força e depositando — ou melhor, jogando — as sacolas sobre a cama vazia ao lado de Harry.
— Serviço de entrega — anunciou ela, ajeitando a jaqueta. Ela tentou manter a expressão neutra, como se tivesse acabado de trazer arquivos de missão, e não compras de shopping. — O Diretor Fury achou que vocês precisavam de um upgrade no guarda-roupa.
Harry largou a caneta imediatamente. Seus olhos verdes brilharam com uma intensidade que quase doía de ver. Ele olhou para as sacolas de marcas famosas, depois para Natasha, e depois para as sacolas de novo.
— Isso... é tudo pra gente? — perguntou ele, a voz falhando. — Tudo novo?
— Tudo novo, Harry. Nada usado — garantiu Natasha, encostando-se na parede e cruzando os braços. — Nada que tenha pertencido a um primo gigante antes.
Harry soltou um grito abafado de alegria. Ele não tinha a reserva da irmã. Ele pulou da cama e correu para as sacolas, enfiando as mãos e puxando peças de roupa como se estivesse desenterrando tesouros.
— Olha isso, Em! — Harry ergueu um moletom azul-marinho grosso e felpudo. — Tem cheiro de loja! E olha esse tênis! Ele tem um raio do lado!
O menino ria, segurando as roupas contra o peito, maravilhado com a ideia de ter algo que era seu, escolhido para ele.
Natasha observou a cena com um leve sorriso de canto de boca, satisfeita por ter irritado o Fury com a conta do cartão, mas genuinamente feliz pela alegria do garoto.
Então, seu olhar se desviou para Emma.
A menina não tinha corrido. Ela tinha descido da cama devagar, caminhando até as sacolas com cautela, como se elas pudessem morder. Ela observava a euforia do irmão com um sorriso pequeno, contido, quase invisível.
Emma estendeu a mão e tocou o tecido de uma blusa que estava para fora da sacola.
— Pode pegar, Emma — incentivou Natasha, a voz suavizando. — Eu escolhi algumas coisas que achei que... serviriam.
Emma assentiu. Ela começou a mexer nas sacolas com delicadeza. Natasha tinha, de fato, comprado coisas coloridas, seguindo a ordem de Fury (a contragosto). Havia camisetas rosa-pálido, um vestido amarelo, blusas com estampas de flores discretas. Coisas que diziam "sou uma criança feliz e normal".
Emma passou por todas elas sem parar. Seus dedos deslizavam pelos tecidos coloridos, mas não os agarravam.
Até que ela encontrou o fundo da sacola.
Seus olhos pararam em um tecido escuro. Ela o puxou.
Era uma camiseta de manga comprida, preta, de algodão macio, com uma gola alta que cobria o pescoço. Simples. Sóbria. Sem estampas, sem flores, sem nada.
Emma segurou a peça contra o corpo. Ela sentiu a maciez. Imaginou a gola cobrindo seu pescoço, as mangas compridas cobrindo os hematomas roxos em seus pulsos, a cor preta fazendo-a desaparecer nas sombras se precisasse se esconder.
Não parecia uma roupa. Parecia uma armadura.
Ela pegou também uma calça legging preta básica que estava no mesmo pacote.
— Eu gostei dessa — disse Emma, a voz baixa, apertando a blusa preta contra o peito.
Natasha descruzou os braços, surpresa.
— Dessa? — Natasha apontou para as outras opções espalhadas na cama. — Tem coisas mais alegres aí, Emma. Tem aquele suéter lilás. É bem quentinho. E tem uma camiseta com uma estrela dourada...
— Eu não gosto muito de coisas coloridas — cortou Emma, educadamente, mas decidida. Ela passou a mão pela gola alta da blusa preta. — Essa é confortável. Ela... cobre tudo. Eu acho que essa tá boa.
Natasha parou. Ela olhou para a menina ruiva segurando a roupa preta como se fosse um escudo. E, de repente, Natasha olhou para si mesma. Jaqueta preta. Calça preta. Botas pretas.
Ela entendeu. Emma não queria chamar atenção. Ela não queria brilhar. Ela queria se sentir protegida, invisível, segura dentro de sua própria pele.
— Tudo bem — disse Natasha, respeitando a escolha. — Preto combina com tudo. É uma boa escolha.
Emma esboçou um sorriso, um pouco maior dessa vez. Ela parecia aliviada por Natasha não tê-la forçado a vestir o rosa.
Nesse momento, a porta se abriu novamente. Nick Fury entrou, ocupando o espaço com sua presença intimidadora. Ele olhou para a bagunça de roupas na cama, para Harry segurando um tênis como se fosse um troféu e para Emma abraçada à blusa preta.
— Vejo que a missão de compras foi um sucesso — disse Fury.
— O cartão corporativo sobreviveu — respondeu Natasha. — Por pouco.
Fury olhou para o relógio.
— Ótimo. Agora eles precisam se vestir. Temos testes para fazer e não quero ninguém de camisola andando pelos meus corredores.
Ele apontou para Harry.
— Sr. Potter, venha comigo. O vestiário masculino fica no fim do corredor à esquerda.
Harry travou. Ele olhou para Fury — o homem alto, de tapa-olho e casaco de couro — com um medo súbito.
— Com... com você? — gaguejou Harry.
Natasha estava prestes a intervir, achando que Fury não tinha tato nenhum com crianças, mas o diretor surpreendeu. Ele não foi rude. Ele apenas pegou as roupas que Harry tinha separado.
— Sim. A menos que você queira se trocar aqui na frente da sua irmã e da Agente Romanoff.
Harry ficou vermelho.
— Não!
— Então vamos. — Fury abriu a porta e esperou. — E traga esse tênis. Tenho certeza que você vai querer testar se ele corre rápido.
Harry olhou para Natasha, buscando aprovação. Ela assentiu levemente. O menino pegou suas coisas novas e seguiu o diretor da S.H.I.E.L.D., parecendo um hobbit seguindo um gigante.
Quando a porta se fechou, Natasha se virou para Emma.
— Acho que sobrou só nós duas, Little Red.
Natasha pegou o resto das roupas que Emma tinha escolhido (basicamente tudo em tons de cinza e preto, ignorando as cores vivas) e fez um sinal com a cabeça.
— O vestiário feminino é aqui do lado. Vamos tirar essa camisola horrível e ver como essa blusa preta fica.
Emma pegou suas roupas novas com cuidado e caminhou até Natasha. Pela primeira vez, ela não andava atrás ou se escondendo. Ela andava ao lado.
— Natasha? — chamou Emma, enquanto saíam para o corredor.
— Hum?
— Obrigada — sussurrou a menina, olhando para a blusa preta em suas mãos. — É a roupa mais bonita que eu já tive.
Natasha sentiu aquele aperto no peito de novo, aquela sensação perigosa de estar se importando demais. Ela colocou a mão no ombro de Emma, guiando-a pelo corredor.
— É só uma blusa, garota. Vamos ver se serve.
Mas as duas sabiam que não era só uma blusa. Era dignidade. E para Emma, vestida de preto como a mulher que a salvou, era o primeiro passo para tentar ser tão forte quanto ela.
A sala de testes não tinha janelas, apenas espelhos falsos. O ar era tão gelado que fazia os pelos do braço de Harry arrepiarem sob o moletom novo.
No centro da sala, duas cadeiras de metal, parecidas com cadeiras de dentista, aguardavam.
— Sentem-se, por favor — instruiu um cientista de jaleco branco, segurando uma prancheta digital. Ele não olhou nos olhos das crianças; olhou para os dados no tablet. Para ele, aquilo era rotina.
Harry e Emma trocaram um olhar. De mãos dadas, eles caminharam até as cadeiras. As roupas novas — o moletom azul e a gola alta preta — eram a única armadura que tinham, mas pareciam finas demais diante daquele maquinário.
Natasha estava encostada na parede, no canto da sala, com os braços cruzados. Ela assentiu levemente para Emma, um sinal silencioso de "eu estou aqui".
— Vamos colocar alguns sensores — disse o cientista, aproximando-se com um emaranhado de fios coloridos e pequenos discos de metal. — Precisamos ler a atividade do córtex frontal e as ondas beta.
Ele espremeu um gel frio e pegajoso na testa de Harry. O menino estremeceu, mas ficou quieto, acostumado a obedecer adultos para evitar problemas.
Mas quando o cientista se virou para Emma, a atmosfera mudou.
Ele se aproximou com o capacete de eletrodos. Parecia uma coroa de espinhos feita de metal e fios.
— Fique parada — ordenou o homem, estendendo a mão para a cabeça dela.
Emma viu a mão vindo em sua direção. Viu os fios que pareciam cordas. Viu o metal que parecia algemas.
De repente, ela não estava na S.H.I.E.L.D. Ela estava no armário sob a escada. Ela estava na cozinha com a Tia Petúnia segurando seu pulso. Ela estava presa.
— Não — sussurrou Emma, recuando na cadeira.
— É rápido, criança. Pare de se mexer — o cientista, impaciente, segurou o ombro dela com firmeza para colocar o capacete.
O toque foi o gatilho.
— NÃO! — gritou Emma, um som agudo e cheio de terror. — ME SOLTA! TIRA ISSO!
Ela começou a hiperventilar. O ar entrava e saía de seus pulmões em arfadas curtas e desesperadas. Ela arranhou a mão do cientista, chutando o ar, tentando se livrar daquele toque que parecia queimar sua pele.
— Segurem ela — disse o cientista para um assistente. — Precisamos da leitura basal.
O assistente segurou o outro braço de Emma.
— NÃO! HARRY! NATASHA! — Emma berrava, os olhos revirando de pânico.
Zuuuum.
O som começou baixo, mas cresceu rápido. As luzes brancas do teto piscaram violentamente. Os monitores cardíacos começaram a apitar num ritmo frenético, não por causa do coração dela, mas porque a eletricidade da sala estava enlouquecendo.
Uma lâmpada no canto da sala estourou, espalhando vidro.
— A leitura está fora de escala! — gritou o cientista, tentando forçar o capacete na cabeça da menina que se debatia. — É fascinante! Continuem!
Natasha Romanoff desencostou da parede.
Ela não andou. Ela avançou como um predador.
Em dois passos, ela atravessou a sala. Ela agarrou o braço do cientista principal e o torceu para trás com uma força que o fez gritar e soltar Emma imediatamente. Com a outra mão, ela empurrou o assistente contra a bancada de equipamentos.
— SAIAM! — O grito de Natasha foi mais alto que o zumbido elétrico. — TIREM AS MÃOS DELA!
— Agente Romanoff, o protocolo exige... — o cientista tentou argumentar, segurando o braço dolorido.
Natasha se virou para ele, e o olhar em seus olhos fez o homem engolir o resto da frase. Era o olhar da Viúva Negra. O olhar que ela usava antes de puxar o gatilho.
— Puta que pariu! — xingou ela, a raiva transbordando. — Vocês são cegos ou são burros? Ela está tendo um ataque de pânico!
Ela apontou para a porta.
— Vocês não sabem lidar com uma criança? Até eu, que sou uma assassina treinada, sei que não se segura uma criança traumatizada à força! Saiam daqui! Agora! Antes que eu quebre a mão de vocês de verdade!
Os cientistas não esperaram por um segundo aviso. Eles recolheram seus tablets e correram para a saída, deixando a sala em silêncio, exceto pela respiração ofegante de Emma e o zumbido das luzes que, aos poucos, paravam de piscar.
A sala ficou vazia. Natasha respirou fundo, controlando a própria adrenalina, e se virou para a cadeira.
A transformação foi instantânea. A postura de combate desapareceu. Os ombros relaxaram. O rosto furioso suavizou-se em algo dolorosamente gentil.
Emma estava encolhida na cadeira, abraçando os próprios joelhos, tremendo como uma folha ao vento. Harry tinha descido de sua cadeira e estava ao lado dela, segurando a barra da calça legging nova da irmã, chorando silenciosamente.
Natasha se ajoelhou na frente de Emma. Ela não a tocou imediatamente. Ela esperou.
— Emma — chamou Natasha. A voz era um sussurro, doce e baixo. — Eles foram embora. Ninguém vai te prender.
Emma soluçou, escondendo o rosto nos joelhos.
— Eles queriam... colocar aquilo... na minha cabeça...
— Eu sei. Mas eu não deixei. — Natasha estendeu a mão devagar e tocou o tornozelo da menina, sobre a meia. — Olha pra mim, Little Red.
Emma levantou o rosto, vermelho e banhado em lágrimas.
Natasha sorriu. Não havia julgamento ali. Havia apenas uma compreensão profunda.
— Você foi muito corajosa — disse Natasha, limpando as lágrimas das bochechas de Emma com os polegares, com uma delicadeza que parecia impossível para mãos que segundos antes tinham torcido um braço. — Mas acabou. Eu estou aqui.
Natasha começou a tirar os resquícios de gel do cabelo de Emma, usando a manga de sua própria jaqueta cara, sem se importar com a sujeira. Ela penteou o cabelo ruivo bagunçado com os dedos, desembaraçando os nós com paciência infinita.
— Vamos tirar vocês daqui — disse ela, olhando para Harry também e passando a mão no cabelo dele para acalmá-lo. — Chega de testes por hoje. Que tal a gente ir ver se tem sorvete no refeitório?
Emma assentiu, fungando, e se inclinou para frente, encostando a testa no ombro de Natasha. Natasha a envolveu num abraço protetor, fechando os olhos e balançando a menina levemente, como se a estivesse ninando.
Do outro lado do espelho falso, na sala de observação, o silêncio era diferente. Era o silêncio do choque.
Clint Barton e Nick Fury estavam parados, observando a cena. Eles viram a fúria da Viúva Negra expulsando os cientistas. E agora viam Natasha Romanoff, a espiã mais letal do mundo, ninando uma criança e limpando gel de cabelo com a própria roupa.
Fury cruzou os braços, um meio sorriso irônico surgindo no rosto.
— "Não sou babá", ela disse. "Odeio crianças", ela disse.
Clint soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Ela pode mentir para o polígrafo, Fury. Pode mentir para você. Mas o corpo não mente. Olha para ela.
Eles observaram Natasha pegar Emma no colo — a menina já era grandinha, mas Natasha a ergueu como se fosse uma pena — e dar a mão para Harry, guiando-os para fora da sala de tortura psicológica.
— Ela está agindo por instinto — analisou Fury. — Ela viu a si mesma naquela cadeira. A Sala Vermelha. Os testes.
— É mais do que isso — corrigiu Clint. — Aquilo ali? Aquele toque no rosto? Aquele jeito de falar baixo? Isso não é trauma, Nick. Isso é maternidade. E ela está morrendo de medo disso.
A porta da sala de observação se abriu minutos depois. Natasha entrou, sozinha, tendo deixado as crianças com Maria Hill no corredor (sob ameaça de morte se alguém as tocasse).
Ela parecia exausta.
— Estão limpos — disse Natasha, seca, indo até o bebedouro. — Sem testes invasivos. Se quiserem dados, peçam com educação. Se tentarem amarrá-los de novo, eu vou eletrocutar o cientista chefe.
Clint se encostou na mesa, sorrindo de orelha a orelha.
— Nossa, Nat. Que performance.
— Foi necessário — cortou ela, bebendo água. — Eles estavam incompetentes. Estavam estragando o ativo.
— "Estragando o ativo"? — repetiu Fury, erguendo a sobrancelha. — Você estava limpando o rostinho dela e prometendo sorvete. Foi a coisa mais doce que eu já vi neste prédio desde que o Coulson trouxe donuts no natal de 2012.
Natasha amassou o copo de plástico e o jogou no lixo com força excessiva.
— Eu estava estabilizando a situação. Crianças calmas não explodem lâmpadas. É tático.
— Tático — zombou Clint. — Você estava sendo mãe, Nat. Admite logo. Você virou a Mamãe Ursa. Foi fofo. Assustador pra caramba quando você quase quebrou o braço do Keller, mas fofo.
Natasha fulminou Clint com o olhar.
— Não me chame de mãe. Eu não tenho instinto maternal. Eu sou quebrada, lembra? Eles tiraram isso de mim na Cerimônia de Graduação. Eu não posso ter filhos, e mesmo que pudesse, eu seria péssima.
A voz dela falhou na última palavra, revelando a ferida aberta que ela carregava há anos. A esterilização forçada na Sala Vermelha. A certeza de que ela era um monstro incapaz de criar vida, apenas de tirá-la.
O sorriso de Clint sumiu. Fury ficou sério.
— Natasha — começou Clint, mais suave. — Biologia não é a única coisa que faz uma mãe. O que você fez lá dentro...
— Chega — Natasha levantou a mão, construindo sua parede de volta, tijolo por tijolo. — Eu fiz o meu trabalho. As crianças estão salvas. O teste acabou. Ponto final.
Ela se virou para sair, a postura rígida, a "Viúva Negra" de volta ao comando.
Mas Fury e Clint trocaram um olhar enquanto a porta se fechava. Eles sabiam a verdade. Natasha podia negar o quanto quisesse, podia se esconder atrás de seus traumas e cicatrizes. Mas aquelas duas crianças tinham acabado de passar por defesas que nenhum exército jamais conseguiu penetrar.
E a Viúva Negra, querendo ou não, já tinha sido capturada pelo alvo mais perigoso de todos: o amor
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
