Apartamento de Natasha Romanoff, Nova York. 20 de Dezembro. 21:00.
A neve caía sobre Manhattan, uma cortina branca e pesada que abafava os sons da cidade. Dentro do apartamento, o único barulho era o zumbido do aquecedor e o bip rítmico do sistema de segurança de nível militar que Natasha instalara.
Ela estava na cozinha, vestindo uma camisa de flanela larga e velha, servindo-se de uma taça de vinho que provavelmente não beberia. O corpo doía. O frio fazia as cicatrizes antigas repuxarem, e a mente não desligava.
De repente, o painel de segurança na parede piscou em vermelho. O interfone tocou.
Natasha franziu a testa. Ninguém tinha esse número. O prédio era criptografado, invisível para GPS civil, e o porteiro era uma IA programada para negar a existência de qualquer morador do 10º andar.
Ela apertou o botão de áudio. — Quem é? — sua voz saiu seca, a mão direita já tateando a faca de cerâmica escondida sob a bancada de mármore.
— Sou eu. — A voz metalizada pelo alto-falante era inconfundível. Grave, rouca. — O sistema não me deixa subir. Stark disse que mudou os códigos.
Natasha soltou a faca. O coração deu um salto traidor no peito, mas ela manteve a expressão impassível. — O que você quer, Barnes? Está nevando.
— Stark mandou eu entregar um documento. É físico. Não pode ser enviado por rede. — Uma pausa. — É sobre Sokovia. Avaliação de danos estruturais.
Natasha revirou os olhos. Tony Stark nunca mandava papel. Tony Stark era alérgico a papel. E James Barnes não era garoto de recados.
Ela suspirou, apertando o botão de liberação. — Elevador 4. Suba antes que eu mude de ideia.
Três minutos depois, a porta do apartamento destravou com um clique pesado.
James entrou. Ele trazia o inverno com ele. Flocos de neve derretiam nos ombros largos de sua jaqueta de couro e no cabelo escuro que caía sobre a testa. Ele segurava uma pasta parda amassada na mão de carne, como se fosse um escudo ridículo.
A porta se fechou, trancando o mundo lá fora.
Ele parou no meio da sala, desconfortável. Ele parecia grande demais para o espaço, uma arma de guerra estacionada numa sala de estar. Seus olhos azuis varreram o perímetro, checando as saídas, antes de pousarem nela.
Natasha estava encostada na bancada da cozinha, os braços cruzados, observando-o com um meio sorriso cínico.
— Sokovia? — ela perguntou, erguendo uma sobrancelha.
James pigarreou, jogando a pasta sobre a mesa de centro. Ela deslizou e quase caiu. — É. O governo sokooviano está... enfim, o Stark achou que você precisava ver as assinaturas de calor nas ruínas e...
Ele começou a falar sobre zonas de exclusão e tratados, mas as palavras saíam truncadas. Ele não conseguia manter o contato visual. Ele olhava para a boca dela, depois para a janela, depois para as próprias botas molhadas.
Natasha deixou ele se enrolar por mais trinta segundos. Era quase doloroso ver o Soldado Invernal, o assassino mais eficiente do século, gaguejar por causa de burocracia falsa.
— James — ela cortou, a voz afiada.
Ele parou.
— Tony não usa papel — ela disse, dando um passo à frente. — E você não veio aqui no meio de uma nevasca para discutir infraestrutura urbana.
Ela parou na frente dele, perto o suficiente para sentir o cheiro de ozônio e frio que emanava dele. — Corta o papo furado. O que você quer aqui?
James olhou para ela. A máscara caiu. A postura defensiva sumiu, substituída por uma tensão muscular que Natasha conhecia bem. Era a tensão de um predador prestes a atacar.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
