Capitulo 64

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Apartamento de Natasha Romanoff, Nova York. 20 de Dezembro. 21:00.

A neve caía sobre Manhattan, uma cortina branca e pesada que abafava os sons da cidade. Dentro do apartamento, o único barulho era o zumbido do aquecedor e o bip rítmico do sistema de segurança de nível militar que Natasha instalara.

Ela estava na cozinha, vestindo uma camisa de flanela larga e velha, servindo-se de uma taça de vinho que provavelmente não beberia. O corpo doía. O frio fazia as cicatrizes antigas repuxarem, e a mente não desligava.

De repente, o painel de segurança na parede piscou em vermelho. O interfone tocou.

Natasha franziu a testa. Ninguém tinha esse número. O prédio era criptografado, invisível para GPS civil, e o porteiro era uma IA programada para negar a existência de qualquer morador do 10º andar.

Ela apertou o botão de áudio. — Quem é? — sua voz saiu seca, a mão direita já tateando a faca de cerâmica escondida sob a bancada de mármore.

Sou eu. — A voz metalizada pelo alto-falante era inconfundível. Grave, rouca. — O sistema não me deixa subir. Stark disse que mudou os códigos.

Natasha soltou a faca. O coração deu um salto traidor no peito, mas ela manteve a expressão impassível. — O que você quer, Barnes? Está nevando.

Stark mandou eu entregar um documento. É físico. Não pode ser enviado por rede. — Uma pausa. — É sobre Sokovia. Avaliação de danos estruturais.

Natasha revirou os olhos. Tony Stark nunca mandava papel. Tony Stark era alérgico a papel. E James Barnes não era garoto de recados.

Ela suspirou, apertando o botão de liberação. — Elevador 4. Suba antes que eu mude de ideia.

Três minutos depois, a porta do apartamento destravou com um clique pesado.

James entrou. Ele trazia o inverno com ele. Flocos de neve derretiam nos ombros largos de sua jaqueta de couro e no cabelo escuro que caía sobre a testa. Ele segurava uma pasta parda amassada na mão de carne, como se fosse um escudo ridículo.

A porta se fechou, trancando o mundo lá fora.

Ele parou no meio da sala, desconfortável. Ele parecia grande demais para o espaço, uma arma de guerra estacionada numa sala de estar. Seus olhos azuis varreram o perímetro, checando as saídas, antes de pousarem nela.

Natasha estava encostada na bancada da cozinha, os braços cruzados, observando-o com um meio sorriso cínico.

— Sokovia? — ela perguntou, erguendo uma sobrancelha.

James pigarreou, jogando a pasta sobre a mesa de centro. Ela deslizou e quase caiu. — É. O governo sokooviano está... enfim, o Stark achou que você precisava ver as assinaturas de calor nas ruínas e...

Ele começou a falar sobre zonas de exclusão e tratados, mas as palavras saíam truncadas. Ele não conseguia manter o contato visual. Ele olhava para a boca dela, depois para a janela, depois para as próprias botas molhadas.

Natasha deixou ele se enrolar por mais trinta segundos. Era quase doloroso ver o Soldado Invernal, o assassino mais eficiente do século, gaguejar por causa de burocracia falsa.

— James — ela cortou, a voz afiada.

Ele parou.

— Tony não usa papel — ela disse, dando um passo à frente. — E você não veio aqui no meio de uma nevasca para discutir infraestrutura urbana.

Ela parou na frente dele, perto o suficiente para sentir o cheiro de ozônio e frio que emanava dele. — Corta o papo furado. O que você quer aqui?

James olhou para ela. A máscara caiu. A postura defensiva sumiu, substituída por uma tensão muscular que Natasha conhecia bem. Era a tensão de um predador prestes a atacar.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora