A garrafa de vodka Stolichnaya estava vazia, caída no tapete felpudo ao lado da cama.
Natasha Romanoff não dormia como uma pessoa normal. Ela dormia como um cadáver: imóvel, silenciosa, quase sem respirar. Era um hábito de sobrevivência. Mas naquela noite, o álcool tinha empurrado sua consciência para um lugar mais profundo e escuro do que o sono tático.
Ela estava sonhando.
Mas não era um dos pesadelos habituais — o sangue na neve de Budapeste, as crianças na Sala Vermelha, o rosto do homem que ela matou para entrar na S.H.I.E.L.D.
O cenário era diferente. Era... quente. Havia cheiro de chá de camomila e chuva de Londres.
— Nat! — Uma voz chamou. Uma voz que soava como sinos de vento. Alegre. Viva.
No sonho, Natasha se virou. Ela não estava usando preto. Ela não sentia o peso das armas. Ela estava sentada num banco de parque, e o sol de outono batia em seu rosto.
Uma mulher sentou-se ao lado dela. Ela tinha cabelos vermelhos. Não o ruivo tingido e severo de Natasha, mas um ruivo acobreado, escuro e natural. Olhos verdes brilhantes, em formato de amêndoa.
Lilian Potter.
Mas Natasha não sabia o nome dela no sonho. Ela apenas sabia que, ao lado daquela mulher, ela se sentia segura. Uma sensação rara e viciante.
— Você não vai acreditar — disse a mulher ruiva, segurando as mãos de Natasha. Ela estava radiante. — Eu estou grávida.
Natasha sentiu um sorriso se abrir em seu próprio rosto — um sorriso que ela não reconhecia.
— De novo, Ruiva? O James não perde tempo.
— Dessa vez é diferente — Lilian riu, levando a mão de Natasha para sua barriga ainda plana. — São dois. Eu sinto. Um menino e uma menina.
O cenário piscou. A luz do sol morreu.
O parque desapareceu. O cheiro de chá virou cheiro de ozônio e medo. A escuridão engoliu tudo.
Natasha tentou recuar, seu instinto de luta ativado, mas ela não conseguia se mexer. Ela estava presa na escuridão.
De repente, Lilian estava lá de novo. Mas ela não estava mais sorrindo. Seu rosto estava pálido, sujo de poeira e lágrimas. O cabelo ruivo estava desgrenhado.
Lilian avançou e agarrou os braços de Natasha com uma força desesperada. Suas unhas cravaram na pele, machucando.
— Eles estão vindo, Nat — sussurrou Lilian, a voz tremendo de pavor. — Ele nos achou.
— Quem? Quem achou vocês? — Natasha tentava perguntar, mas sua voz não saía.
Lilian sacudiu Natasha, os olhos verdes cheios de uma urgência mortal.
— Você precisa proteger ela. Você precisa proteger a minha filha.
— Lily...
— Prometa! — gritou Lilian, e o grito ecoou como um trovão. — Quando eu não estiver mais aqui... você é a única em quem eu confio. Proteja a Emma. Salve a minha filha!
A imagem de Lilian começou a queimar, consumida por uma luz verde cegante.
— PROTEJA ELA!
Natasha acordou com um grito preso na garganta.
Ela se sentou na cama num movimento brusco, o coração batendo tão forte que parecia querer quebrar suas costelas. Seu corpo estava encharcado de suor frio.
Ela olhou freneticamente pelo quarto escuro do apartamento, a mão instintivamente indo para baixo do travesseiro em busca da faca que sempre guardava lá.
Não havia ninguém. Apenas o silêncio de Washington e o zumbido da geladeira.
Natasha soltou o ar, trêmula. Ela largou a faca e levou as mãos ao rosto, tentando afastar a náusea da ressaca e o terror do pesadelo.
Foi então que ela sentiu.
Seus braços doíam.
Natasha acendeu a luz do abajur. Ela olhou para seus bíceps nus.
Não havia marcas visíveis. Mas a sensação fantasma dos dedos de Lilian apertando sua pele era tão real, tão física, que Natasha esfregou o local, tentando apagar o toque.
— O que foi isso? — sussurrou ela para o quarto vazio.
Sua mente de espiã tentou catalogar o sonho. Lilian Potter. Mãe dos alvos. Ela tinha visto a foto na pasta da S.H.I.E.L.D. Era óbvio que seu subconsciente projetaria a imagem da mãe morta por causa da culpa que sentia por ter deixado Emma ir.
Mas... e a conversa no parque? O sorriso? A sensação de intimidade, de amizade profunda, de conhecer aquela mulher melhor do que conhecia a si mesma?
Natasha fechou os olhos e tentou acessar suas memórias. Tentou lembrar de algum dia ter estado em Londres nos anos 80, fora de missão.
Havia buracos.
A Sala Vermelha não apenas treinava assassinas. Ela editava mentes. Apagava o que era "inútil". Memórias de bondade, de amor, de fraqueza... tudo era deletado ou trancado atrás de barreiras mentais impenetráveis.
Natasha sentiu um calafrio.
Aquele pedido... "Você é a única em quem eu confio".
Não parecia um sonho. Parecia uma lembrança tentando arrombar a porta do esquecimento.
Milhares de quilômetros a leste, na Escócia, a noite ainda cobria as torres do castelo de Hogwarts.
No quarto circular no topo da torre mais alta, Albus Dumbledore abriu os olhos.
Ele não gritou. Ele não suou. Ele simplesmente acordou, totalmente alerta, como se nunca tivesse dormido.
Ele se sentou em sua cama de dossel, a respiração levemente acelerada.
O sonho tinha sido vívido. Não era seu. Como um Legilimens poderoso, Dumbledore às vezes captava ecos de magia emocional muito forte, especialmente quando envolvia pessoas em quem ele estava focado.
E ele estava focado em Emma Potter e na estranha conexão com a trouxa.
Ele tinha visto o sonho. Viu a mulher ruiva — Lilian, uma de suas alunas favoritas — implorando. Mas não implorava a ele. Não implorava a James.
Implorava a uma sombra. Uma sombra que Dumbledore agora sabia ser Natasha Romanoff.
Dumbledore acendeu a ponta de sua varinha com um murmúrio, iluminando o quarto com uma luz suave. Ele se levantou, calçou as pantufas e caminhou até a penseira de pedra que ficava no canto.
Ele tocou a superfície prateada das memórias com a varinha, franzindo a testa.
— Curioso — murmurou Dumbledore para o silêncio da torre. — Muito curioso.
Ele sempre acreditou saber tudo sobre a vida de Lilian e James. A Ordem da Fênix. Os amigos. Os inimigos. Ele sabia quem era o Fiel do Segredo.
Mas agora, no meio da noite, uma nova peça do tabuleiro se revelava.
— Lilian Evans tinha segredos — disse Dumbledore, a voz pensativa. — Amizades que escaparam até mesmo aos meus olhos.
Ele se lembrou da intensidade com que Natasha olhou para Emma. Do "Protocolo Little Red". Da dor da despedida.
Não era apenas empatia de uma estranha. Era um Voto. Um pedido feito por uma mãe desesperada a uma amiga perigosa, selado talvez não com magia de varinha, mas com algo igualmente poderoso.
— Parece que há mais capítulos nessa história do que eu supunha — concluiu Dumbledore, apagando a varinha e olhando para a lua lá fora. — E receio que o destino de Natasha Romanoff e Emma Potter esteja entrelaçado de uma forma que nem a S.H.I.E.L.D. e nem o Ministério da Magia podem cortar.
Ele voltou para a cama, mas não dormiu. Sua mente brilhante já estava trabalhando, tentando desvendar o mistério de como uma espiã russa e uma bruxa inglesa se conheceram... e o que isso significava para o futuro da menina que acabara de chegar à Toca.
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Daughter of No One
ФанфикшнHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
