A água quente tinha levado a fuligem, o sangue seco e o cheiro de querosene, mas não tinha levado o frio que morava dentro dos ossos de Natasha. Ela saiu do banheiro vestindo as roupas que Bond tinha resgatado de seu armário pessoal no MI6 antes de ir para a Hungria: uma calça de moletom preta macia e um suéter de cashmere cinza, largo e confortável. Ela parecia pequena, limpa e quebrável.
Ela estava em frente ao espelho, passando a toalha no cabelo molhado em silêncio. Seus olhos verdes encaravam o reflexo, mas não viam o banheiro de Q. Viam fogo. Viam neve.
Toc. Toc. Duas batidas secas na porta.
Natasha baixou a toalha. — Entra.
Clint Barton entrou. Ele não estava armado, mas parecia que tinha envelhecido dez anos em dois dias. Ele encostou a porta e cruzou os braços, olhando para ela com uma mistura de alívio e fúria fraternal. — Eu poderia te matar nesse exato momento, Romanoff — ele disse, a voz rouca. — Uma flecha. Bem no joelho. Só para você nunca mais correr de mim.
Natasha soltou um sorriso fraco, culpado. — Seria justo.
Clint balançou a cabeça, a pose durona desmoronando. Ele caminhou até ela e a puxou para um abraço de urso. Natasha enterrou o rosto no ombro dele, sentindo o cheiro familiar do melhor amigo. — Eu achei que tinha te perdido, Nat — ele sussurrou. — Não faz isso de novo.
— Eu estou aqui, Clint. Eu estou aqui.
Sala de Estar. 02:30.
Eles se acomodaram na sala. A luz estava baixa. Yelena estava sentada no tapete, com as costas apoiadas no sofá. Ela tinha uma cerveja na mão (roubada da geladeira de Q) e falava. Todos ouviam. Bucky, Clint, Bond, Q. Ela contava a história dos últimos 13 anos. A história que Natasha achava que tinha terminado com uma explosão.
— ...Dreykov sobreviveu — Yelena dizia, a voz monótona, olhando para o líquido na garrafa. — Ele ficou com cicatrizes, claro. Mas ele aprendeu. Ele percebeu que o condicionamento psicológico falhava. Que as Viúvas podiam quebrar a programação, como a Natasha fez. — Então ele mudou para a química.
Yelena tocou a própria nuca. — Ele desenvolveu o agente sintético. O Pó Vermelho. — Não é hipnose. É bloqueio neural. Você está lá dentro. Você vê o que está fazendo. Você quer gritar, quer parar. Mas o seu corpo... o seu corpo obedece a ele. É como estar presa no banco do passageiro do seu próprio carro, vendo alguém dirigir em direção a um precipício.
Natasha estava sentada na poltrona do canto, abraçando os joelhos. O olhar dela estava fixo na chama de uma vela decorativa na mesa de centro. Ela ouvia a voz de Yelena, mas as palavras começaram a ficar distantes. Abafadas.
Zzzzzzt. Um som fantasma ecoou na mente de Natasha. Não era a voz de Yelena. Era o som de eletricidade. A sala de Q desapareceu.
Flashback. Ela sentiu o couro frio das amarras nos pulsos. Sentiu a coroa de metal sendo colocada em sua cabeça. Viu as luzes brancas cegantes da Sala Vermelha. "Novamente," a voz do técnico dizia. "Até que ela esqueça o nome." A dor. A convulsão. O cheiro de ozônio e cabelo queimado. O apagamento. A sensação de sua própria identidade sendo raspada como pele morta, deixando apenas a arma.
O terror subiu pela garganta de Natasha. O medo não era da dor. O medo era o esquecimento. O medo era voltar para aquela cadeira e esquecer Emma. Esquecer que ela era humana. O coração dela disparou. A respiração ficou curta. Ela estava entrando em pânico, paralisada no meio da sala cheia de amigos.
De repente, o cheiro de comida quente invadiu suas narinas, quebrando o cheiro fantasma de ozônio. Um prato foi colocado suavemente na mesa à sua frente. Risoto. Quente. Uma mão grande e quente tocou o topo da cabeça dela.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Daughter of No One
Fiksi PenggemarHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
