Capítulo 13

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Dois meses haviam se passado. A neve do inverno começava a derreter nos campos ao redor da Toca, dando lugar aos primeiros botões de flores da primavera.
A casa dos Weasley dormia. O som rítmico dos roncos vinha de vários quartos — o som grave do Sr. Weasley, os assobios dos gêmeos e o ressonar suave de Harry e Ron no quarto laranja lá em cima.
Mas no pequeno quarto que Gina agora dividia com Emma, o silêncio era absoluto.
Emma Potter não estava dormindo.
Ela estava sentada no parapeito da janela, enrolada num cobertor de retalhos feito à mão por Molly. A janela estava aberta apenas uma fresta, deixando entrar o ar frio da noite.
Seus olhos verdes perscrutavam a escuridão do céu estrelado.
Agora ela sabia. Ron tinha explicado tudo. As corujas traziam o correio. Elas traziam cartas, pacotes, notícias. Qualquer um podia enviar uma carta se tivesse uma coruja.
Toda noite, Emma esperava ver uma silhueta alada descendo em direção à casa. Ela esperava ver um envelope com o carimbo da S.H.I.E.L.D., ou apenas um papel simples com uma letra elegante dizendo "Oi, Little Red".
Uma coruja marrom passou voando baixo, caçando um rato no jardim. O coração de Emma pulou, mas a ave não parou. Seguiu direto para o celeiro.
Emma suspirou, o vapor de sua respiração embaçando o vidro.
— Ela não vem — sussurrou a menina para si mesma, puxando a gola da sua blusa preta favorita (que ela insistia em usar, mesmo Molly tendo tricotado suéteres lindos).
Harry dizia que Natasha estava ocupada salvando o mundo. Dumbledore dizia que era perigoso.
Mas para Emma, parecia apenas esquecimento.
Ela fechou a janela, sentindo aquele velho vazio no peito. Ela estava feliz na Toca, amava a Tia Molly e as brincadeiras dos gêmeos. Mas faltava um pedaço. E esse pedaço estava do outro lado do oceano, provavelmente nem se lembrando mais da menina que tirou do fogo.
Base da S.H.I.E.L.D., Nova York
Do outro lado do oceano, Natasha Romanoff definitivamente não tinha esquecido. Mas ela era mestre na arte de fingir que sim.
Ela estava na academia da nova base, observando um homem loiro e alto espancar um saco de areia com uma força que desafiava a física. A cada soco, o saco dobrava, gemia e, finalmente, com um golpe de direita devastador, a corrente se rompeu, enviando o equipamento voando para o outro lado da sala.
Steve Rogers parou, ofegante, o suor escorrendo pelo rosto. Ele olhou para o estrago com uma expressão de culpa genuína.
— Acho que vou ter que pagar por isso — disse ele.
Natasha desencostou da coluna onde estava observando e caminhou até ele, entregando uma toalha.
— Não se preocupe, Capitão. O orçamento do Fury cobre sacos de pancada. Especialmente para lendas vivas.
Steve pegou a toalha, secando o rosto. Ele parecia deslocado, um homem de 1945 tentando entender por que o mundo de 2012 era tão barulhento e cinza.
— Não sei se gosto desse termo. "Lenda". Faz eu me sentir... velho.
— Você é velho, Rogers — brincou Natasha, um sorriso leve nos lábios. — Tecnicamente, você é o idoso mais conservado que eu conheço.
Steve riu, um som honesto. Eles tinham se tornado... amigos. Ou algo próximo disso. Natasha tinha sido designada para ajudar na transição dele. Ensinar sobre a internet (um desastre), sobre a história moderna (deprimente) e sobre como a S.H.I.E.L.D. funcionava.
— Foi um grande alvoroço quando achamos você no gelo, sabe? — comentou Natasha, caminhando ao lado dele em direção à saída. — Metade da base achava que era mito. A outra metade apostava que você estaria... bem, menos vivo.
— Eu dormi por setenta anos — Steve balançou a cabeça, o olhar distante. — Às vezes, parece que ainda estou sonhando. O mundo mudou muito, Romanoff.
— As pessoas mudaram — corrigiu ela. — Mas as ameaças? Elas continuam as mesmas. Caras maus querendo dominar o mundo. Caras bons tentando impedir. Apenas as armas ficaram maiores.
— E você é um dos "caras bons"? — perguntou Steve, olhando para ela com curiosidade. Ele tinha lido o arquivo dela. Espiã russa. Assassina. O passado dela era tão vermelho quanto o cabelo.
Natasha parou na porta do vestiário.
— Eu tento limpar a minha conta, Steve. É o melhor que posso fazer.
Antes que a conversa ficasse profunda demais, o relógio de pulso de Natasha bipou. E o comunicador de Steve também.
— Fury — disseram os dois ao mesmo tempo.
Minutos depois, eles estavam na sala de comando. Nick Fury estava diante de uma tela enorme que mostrava o mapa da Europa.
— Descansem depois — disse Fury, sem rodeios. — Temos uma situação.
— Outro satélite da HYDRA? — perguntou Steve, cruzando os braços, a postura militar impecável.
— Pior. — Fury ampliou o mapa. Um ponto vermelho pulsava sobre uma cidade específica. — Londres.
Natasha sentiu o estômago dar um nó. Londres. A cidade onde as crianças deveriam estar, ou perto dela. Ela manteve o rosto impassível, mas suas mãos fecharam em punhos discretamente.
— O MI6 entrou em contato há duas horas — explicou Fury. — Eles detectaram picos de energia atmosférica incomuns sobre o Tâmisa. Não é clima. Não é poluição.
— O que é? — perguntou Natasha.
Fury puxou uma imagem de satélite borrada. Mostrava nuvens em espiral e relâmpagos que não pareciam naturais. Eram esverdeados e azuis.
— Assinatura energética similar à que vimos no Novo México ano passado. A ponte de Einstein-Rosen.
— O evento do Thor? — Steve franziu a testa, tentando processar a ideia de "deuses nórdicos" que Natasha tinha tentado explicar no dia anterior.
— Exato. — Fury virou-se para eles. — Nossos analistas acreditam que alguém está tentando abrir uma porta. Alguém de Asgard. Ou de outro lugar.
— Um alienígena? — perguntou Steve, cético.
— Um deus, um alienígena, um gigante de gelo... chame como quiser, Capitão. O fato é: temos um alvo hostil potencial em solo aliado. E o MI6 está pedindo especialistas.
Fury olhou para Natasha.
— Romanoff, você conhece Londres como a palma da sua mão. E você conhece o perfil psicológico desse tipo de ameaça "exótica".
— Você quer que eu vá para Londres — constatou Natasha, a voz neutra.
— Quero que você e o Capitão vão. Investigar a anomalia. Se for o irmão do Thor, aquele tal de Loki... quero saber o que ele está planejando antes que ele transforme o Big Ben em um palito de dente.
Natasha hesitou. Londres era perto demais. Se ela fosse... a tentação de pegar um trem para o interior, para a casa dos Weasley, seria insuportável. Dumbledore tinha dito que as portas estavam abertas.
Mas ela olhou para o mapa. Picos de energia. Ameaça nível global.
Se Loki ou qualquer outra coisa estivesse em Londres, Emma estaria em perigo. A "proteção mágica" dos Weasley aguentaria um ataque alienígena?
A dúvida durou um segundo. O instinto protetor (o Protocolo Little Red) assumiu o comando. Ela não ia para visitar. Ela ia para garantir que nenhum deus maluco chegasse perto da menina.
— Quando partimos? — perguntou Natasha.
— O jato está abastecido — respondeu Fury. — Rodas para cima em vinte minutos.
Natasha assentiu e saiu da sala, com Steve logo atrás.
— Você pareceu tensa quando ele falou de Londres — observou Steve, perspicaz, enquanto caminhavam para o hangar. — Más lembranças?
Natasha olhou para frente, focada.
— Não, Steve. — Ela mentiu com a facilidade de quem respira. — Apenas preocupada com o que vamos encontrar. Deuses costumam fazer muita bagunça.
Mas enquanto ela entrava no Quinjet e afivelava o cinto, a mente de Natasha não estava em Loki ou Thor. Estava numa janela imaginária, perguntando-se se uma certa menina ruiva ainda olhava para o céu esperando por ela.

Escritório do Diretor, Hogwarts
A chuva batia contra as janelas altas da torre, distorcendo a vista das montanhas escocesas. Dentro do escritório circular, a lareira crepitava, mas o calor não parecia alcançar Albus Dumbledore.
Ele estava de pé diante da Penseira, girando a varinha entre os dedos longos e nodosos. A superfície prateada da bacia de pedra rodopiava, mostrando fragmentos de memórias que não faziam sentido completo.
— Albus? — A voz de Minerva McGonagall cortou o silêncio. Ela estava sentada em uma das poltronas, segurando uma xícara de chá que já havia esfriado. — Você está encarando essa bacia há uma hora. O que está perturbando você?
Dumbledore suspirou, um som pesado e cansado.
— O sonho, Minerva. Ele não para.
Minerva ajeitou os óculos, preocupada.
— O sonho com Lilian? Você disse que foi apenas um eco. Uma coincidência.
— Uma vez é coincidência. Duas vezes é acaso. — Dumbledore virou-se para ela, os olhos azuis sem o brilho habitual. — Todas as noites, durante dois meses, é um padrão. Eu vejo Lilian Evans. Eu a vejo feliz, grávida, num parque ensolarado. E depois... eu a vejo desesperada, segurando os braços de Natasha Romanoff, implorando pela vida de Emma.
Ele começou a andar pela sala, as vestes roxas farfalhando.
— Não é apenas um sonho, Minerva. É uma mensagem. Ou melhor, é um fragmento de verdade que foi perdido. Eu sinto que isso é vital. A conexão entre a Srta. Romanoff e a Srta. Potter não é aleatória. É a chave para o futuro das crianças. Se Lilian confiou a vida da filha a uma espiã russa... precisamos saber o porquê.
Minerva franziu a testa.
— Lilian está morta, Albus. Não podemos perguntar a ela.
— Não — concordou Dumbledore. — Mas Natasha Romanoff está viva.
— E você acha que ela sabe? — Minerva parecia cética. — Se ela soubesse, se ela se lembrasse de Lilian, ela teria dito algo quando estivemos em Washington. Ela parecia genuinamente ignorante sobre a origem das crianças até contarmos a história.
— A mente humana é um labirinto complexo, especialmente a de alguém que passou pelo que ela passou. — Dumbledore parou diante de Fawkes, acariciando as penas vermelhas da fênix. — Eu pesquisei sobre a "Sala Vermelha", Minerva. O lugar onde ela foi treinada. Eles não apenas ensinam a matar. Eles quebram a psique. Eles apagam memórias. Eles reescrevem a história pessoal de seus agentes para torná-los mais eficientes.
Dumbledore olhou para a professora de Transfiguração com seriedade.
— Eu acredito que Natasha conheceu Lilian. Eu acredito que elas foram amigas. Mas essa memória foi roubada dela. Enterrada sob camadas de condicionamento mental e trauma.
— E você quer... o quê? — Minerva perguntou, temerosa. — Extrair a memória?
— Eu quero ajudá-la a lembrar. Precisamos dessa memória, Minerva. Precisamos saber o que Lilian sabia. Que perigo ela previu? Que promessa foi feita?
Minerva soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça.
— Isso é loucura, Albus. Absolutamente impossível. Primeiro, Natasha Romanoff é uma das mulheres mais perigosas do planeta. Ela não vai deixar você entrar na mente dela. Segundo, ela está do outro lado do oceano, em uma base militar fortificada em Washington. Você não está sugerindo que a gente invada o Triskelion novamente, está? Porque da última vez foi sorte o Fury não ter atirado em nós.
— Não, minha cara — disse Dumbledore, voltando para sua mesa e pegando uma daquelas balas de limão. Ele parecia subitamente mais leve, com aquele brilho maroto voltando aos olhos. — Não será necessário cruzar o Atlântico.
— Como assim?
Dumbledore apontou para um dos seus muitos instrumentos de prata sobre a mesa. Era uma espécie de bússola delicada, que não apontava para o Norte, mas girava lentamente, pulsando com uma luz fraca.
— Eu coloquei um rastreador sutil na aura da Srta. Romanoff quando nos despedimos? Talvez. Apenas por precaução, claro. Para garantir que ela não representasse uma ameaça para Emma.
— Albus! — repreendeu Minerva.
— E acontece que essa bússola acabou de mudar de direção — continuou ele, ignorando a bronca. — Ela não está mais apontando para o Oeste. Está apontando para o Sul.
— Sul?
— Londres, para ser exato.
Dumbledore sorriu.
— Eu senti a presença dela cruzando nossas fronteiras esta tarde. A magia que Emma deixou nela é como um farol para quem sabe olhar. Natasha Romanoff está na Inglaterra, Minerva.
Minerva colocou a xícara na mesa com um baque.
— O que ela está fazendo aqui? Veio ver a menina?
— Duvido muito. Ela é orgulhosa demais para quebrar sua própria regra de afastamento tão cedo. Provavelmente é uma missão da S.H.I.E.L.D. — Dumbledore ajeitou as mangas. — Mas o destino tem um senso de humor peculiar. Ele a trouxe para o nosso quintal exatamente quando precisávamos dela.
Ele caminhou até a lareira e pegou o Pó de Flu.
— Prepare-se, Minerva. Vamos fazer uma pequena viagem à capital. Acho que está na hora de oferecermos à Viúva Negra algo mais forte que vodka para ajudá-la a dormir. Vamos oferecer a verdade.
— E se ela não quiser a verdade? — perguntou Minerva, levantando-se.
Dumbledore olhou para as chamas verdes que subiam.
— Oh, ela quer. A alma dela está gritando por isso todas as noites, assim como a minha. Ela só precisa de um pequeno empurrão mágico para ouvir.

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