Do lado de fora, o vidro da sala de observação era um espelho frio. Do lado de dentro, era uma parede invisível que separava duas crianças do resto do mundo.
Natasha Romanoff estava parada no corredor escuro, os braços cruzados sobre o peito, observando.
Lá dentro, sob a luz azulada e suave do modo noturno da ala médica, Harry dormia. Ele estava deitado numa cama hospitalar, encolhido em posição fetal, segurando o travesseiro com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, mesmo no sono. O sedativo leve que os médicos deram finalmente vencera a adrenalina.
Mas Emma... Emma não estava dormindo.
Ela não estava na cama. Ela estava no chão, no canto mais distante da porta, espremida entre a parede e um armário de metal. Seus joelhos estavam puxados contra o peito, o queixo apoiado neles, os olhos verdes abertos e fixos no nada.
Natasha sentiu um aperto familiar e doloroso no peito. Ela não via apenas uma menina resgatada. Ela via um fantasma.
A semelhança física era inegável — o cabelo vermelho fogo, agora limpo da fuligem, caía sobre os ombros da menina exatamente como o de Natasha caía quando ela tinha aquela idade. Os olhos verdes tinham o mesmo tom desafiador e ferido.
Mas não era a aparência que fazia Natasha travar a mandíbula. Era a postura.
Aquele jeito de se encolher no canto, tentando ocupar o menor espaço possível. O olhar de quem espera que a porta se abra a qualquer momento para trazer dor, punição ou uma nova ordem.
Natasha fechou os olhos por um segundo e, de repente, não estava mais no Triskelion. Ela estava na Sala Vermelha. Sentia o frio do chão de concreto da Bielorrússia. Lembrava-se da sensação de estar perdida, de não pertencer a ninguém, de ser apenas um número esperando para ser descartada.
Ela é eu, pensou Natasha. Antes de me quebrarem, eu era ela.
A Viúva Negra — a espiã fria, a Vingadora intocável — suspirou e deixou sua postura relaxar. Ela descruzou os braços. Ajeitou o casaco de moletom civil que tinha colocado por cima do uniforme tático.
— O que você vai fazer? — perguntou Clint, que monitorava as câmeras num console próximo.
— Vou entrar — disse Natasha.
— Fury disse para mantermos o isolamento. Protocolo de segurança nível...
— Ao inferno com o protocolo, Clint — ela o cortou, mas sem raiva. Apenas com uma certeza absoluta. — Ela não precisa de um agente. Ela precisa de uma pessoa.
Natasha caminhou até uma máquina de venda automática no corredor. Digitou o código e pegou uma barra de chocolate ao leite.
Ela respirou fundo, compôs sua expressão para algo suave — um rosto que ela raramente usava — e passou o cartão magnético na porta.
A tranca clicou. Emma se encolheu imediatamente, pressionando as costas com mais força contra a parede, os olhos arregalados de pânico.
Natasha entrou devagar. Ela não marchou como um soldado. Ela caminhou descalça, silenciosa, e parou a uma distância segura. Ela não olhou para Emma de cima para baixo. Em vez disso, Natasha deslizou as costas pela parede oposta e sentou-se no chão, ficando na mesma altura dos olhos da menina.
O silêncio reinou por alguns minutos. Apenas o som do monitor cardíaco de Harry bipando ritmicamente.
Natasha não forçou a conversa. Ela apenas abriu a embalagem do chocolate. O som do papel rasgando foi alto no silêncio do quarto. O cheiro doce invadiu o ar estéril de antisséptico.
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Daughter of No One
Fiksi PenggemarHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
