O gosto de sangue na boca de Natasha era familiar. Metálico, quente, ferroso.
Ela estava amarrada a uma cadeira de madeira barata, as mãos presas atrás das costas com cordas grossas. O ambiente cheirava a mofo, óleo diesel e suor masculino.
Diante dela, o General Georgi Luchkov andava de um lado para o outro, gesticulando com impaciência. Dois de seus capangas brutais estavam parados nas sombras. Um terceiro, alto e magro, inclinava a cadeira de Natasha perigosamente para trás, equilibrando-a sobre o poço escuro de um elevador de carga quebrado.
Era uma terça-feira típica.
— Não é assim que eu queria que essa noite terminasse — disse Luchkov, em russo, parando na frente dela.
— Eu sei como você queria que terminasse — respondeu Natasha, em russo, a voz calma, apesar do tapa que acabara de levar. — Acredite, isso é melhor.
Luchkov riu, sem humor.
— Para quem você trabalha? Lermentov? Solohob?
— Ele acha que eu trabalho para o Solohob? — Natasha perguntou para o capanga alto que segurava a cadeira, como se estivessem compartilhando uma piada interna.
O capanga apenas inclinou a cadeira mais um pouco. O abismo atrás dela bocejou.
— Você acha que pode vir aqui, roubar minha carga e rir na minha cara? — gritou Luchkov. Ele se aproximou, o rosto vermelho. — Onde estão os códigos?
— Eu já disse — mentiu Natasha, mantendo o ritmo cardíaco assustadoramente baixo. — Eu não sei de códigos.
— Mentira! — Luchkov deu um soco na mesa de ferramentas ao lado. — Nós sabemos que você é a famosa Viúva Negra. Mas até as aranhas perdem as pernas.
Natasha observou. Ela catalogou a posição de cada homem. A distância da mesa. A resistência da madeira da cadeira. Ela estava no controle absoluto. Ela estava extraindo cada pedaço de informação que precisava apenas deixando ele falar.
— Você está me dando tudo, Georgi — disse ela, quase sussurrando. — Bases de operação. Compradores. Rotas.
Luchkov parou. Ele piscou, confuso.
— O quê?
— Você está falando demais. — Natasha sorriu, um sorriso sangrento. — Eu já tenho o que eu preciso.
Antes que Luchkov pudesse processar o que aquilo significava, um som cortou a tensão do armazém.
Um toque de celular.
Não o de Luchkov. Mas um toque que vinha de cima de uma pilha de caixotes onde eles tinham jogado os pertences confiscados de Natasha.
Luchkov olhou para o telefone, irritado. Ele caminhou até lá e o pegou.
— Quem é? — rosnou ele.
Houve uma voz do outro lado. Calma. Burocrática.
Luchkov franziu a testa e olhou para Natasha, confuso.
— É para você.
Natasha revirou os olhos.
— Eu estou ocupada. Estou trabalhando.
Luchkov colocou o telefone na orelha dela, talvez para provar um ponto, ou talvez apenas chocado com a audácia de quem ligava.
— Coulson — disse Natasha, a voz entediada. — Você sabe que eu estou no meio de um interrogatório. E esse idiota está me dando tudo.
— Natasha — a voz de Phil Coulson soou do outro lado, sem a leveza habitual. — Nós precisamos que você entre.
— Agora? Eu estou na Rússia, Coulson. Estou no meio da extração de inteligência.
— Isso é prioridade um, Nat.
— Prioridade um? — Natasha riu, cética. — A menos que a Terceira Guerra Mundial tenha começado, eu vou terminar aqui e...
— Barton foi comprometido.
O mundo parou.
O armazém sumiu. O cheiro de óleo sumiu. O sorriso de escárnio de Natasha desapareceu, substituído por uma máscara de gelo absoluto.
— Repita — disse ela. A voz não era mais de uma espiã brincando. Era a voz de uma mulher vendo o chão desabar.
— Nós perdemos o contato. O Tesseract foi ativado. Uma força hostil invadiu o Projeto PEGASUS. Clint estava na segurança. Ele... ele foi levado, Nat. Ele sumiu. O sinal dele está frio.
Clint. O Gavião. Seu melhor amigo. O homem que a salvou. O único homem que sabia sobre Emma. O único homem que sabia onde a filha dela estava.
Se Clint estava comprometido... se ele tinha sido capturado e quebrado... Emma estava em perigo.
— Natasha? — chamou Coulson. — Você está aí?
Natasha olhou para Luchkov.
— Por favor, espere um instante — disse ela para Coulson, em inglês.
Luchkov franziu a testa.
— O que...
Natasha não esperou.
Num movimento fluido e violento, ela jogou a cabeça para trás, acertando em cheio o nariz do capanga que segurava a cadeira. O som de cartilagem quebrando foi alto.
Enquanto ele caía gritando, Natasha usou o impulso para dar uma cambalhota para frente, ainda presa à cadeira. Ela aterrissou com os pés no peito de Luchkov, jogando-o longe.
Foi um turbilhão de violência calculada.
Ela girou no chão, quebrando as pernas da cadeira com o peso do corpo. Soltou as mãos. Levantou-se.
Dois capangas vieram para cima. Natasha pegou a corrente que pendia do teto, enrolou no pescoço do primeiro e o usou como escudo humano para chutar o segundo.
Clint sumiu. Chute na traqueia.
Clint foi levado. Cotovelada na têmpora.
Clint sabe sobre a Emma. Soco na garganta.
Em dez segundos, todos os homens estavam no chão, gemendo ou inconscientes.
Natasha caminhou até o telefone que tinha caído no chão, pegando-o com calma, embora seu peito subisse e descesse rapidamente.
— Onde está o Barton agora? — perguntou ela, caminhando para a saída, pisando na mão de Luchkov sem nem olhar.
— Não sabemos — admitiu Coulson. — Mas temos que reunir a equipe. Estamos em guerra, Nat. Preciso que você vá atrás do "Grande Cara".
— Stark?
— Banner.
Natasha parou na porta do armazém, sentindo o vento gélido da Rússia bater em seu rosto.
Banner. O Hulk. E Clint desaparecido, provavelmente nas mãos de alguém que podia controlar mentes ou torturar até a loucura.
O segredo de Emma, o Protocolo Laura, tudo estava por um fio. Se Clint falasse...
— Coulson — disse Natasha, a voz tremendo levemente pela primeira vez. — Eu vou buscar o Banner. Mas depois... eu vou caçar quem levou o Clint. E eu vou matar quem quer que seja.
— Nós vamos trazê-lo de volta, Nat.
— É bom que tragam — sussurrou ela, desligando.
Ela olhou para o céu cinzento.
O zumbido dos motores do jato era constante e hipnótico. Natasha estava sentada no banco do copiloto, mas o piloto automático estava ligado. Ela olhou para o reflexo no vidro escuro da cabine. Havia um corte pequeno no lábio inferior e um hematoma começando a se formar na maçã do rosto — lembranças da "hospitalidade" de Luchkov.
Com um lenço de papel úmido, ela limpou o sangue seco do canto da boca. Ardeu, mas a dor ajudava a focar.
O pensamento em Clint era um ruído branco constante em sua mente. Onde ele está? O que fizeram com ele? Ele falou?
Ela precisava ouvir uma voz que não fosse de um agente ou de um inimigo.
Ela pegou o telefone seguro e discou o número de casa.
Tocou duas vezes.
— Alô? — A voz de Emma era um sussurro conspiratório.
Natasha soltou o ar que prendia nos pulmões.
— Oi, Little Red. Sou eu.
— Nat! — Emma parecia aliviada, mas continuou sussurrando. — Você tá bem? Por que tá demorando?
— Tive um... imprevisto no trabalho — disse Natasha, olhando para o sangue no lenço. — A missão mudou. Vou ter que viajar para outro lugar antes de voltar. Índia.
— Índia? — Emma repetiu, impressionada. — Longe.
— É. Escuta, como estão as coisas aí? A Agente Hill ainda está com você?
Houve uma pausa do outro lado. Natasha ouviu um som abafado, como se Emma tivesse colocado a mão sobre o bocal do telefone e se escondido embaixo de um cobertor.
— Trocaram — sussurrou Emma, indignada. — A Hill teve que sair pra "salvar o mundo" também. Agora mandaram uma tal de Agente 13. Ela é... chata.
Natasha não conseguiu segurar uma risada curta e rouca. Sharon Carter. É, ela podia ser um pouco "regulamento demais" para uma criança mágica.
— Ela não me deixa testar feitiços na sala — reclamou Emma. — E ela não sabe jogar Mario Kart. Volta logo, Nat. Por favor.
O riso de Natasha morreu, substituído por um aperto no peito.
— Eu vou voltar, Emma. Eu prometo. Mas vai demorar mais um pouco. Talvez mais um dia ou dois.
— Tudo bem... — A voz de Emma estava triste, mas resignada. Ela estava se acostumando rápido demais com a vida de filha de espiã.
— Ei — disse Natasha, tentando colocar ânimo na voz. — Não fica assim. Quando eu voltar, a gente vai naquela sorveteria chique. O triplo de cobertura. E... daqui a dois meses é seu aniversário. E tem Hogwarts. Temos que estar prontas, certo?
— Certo. Onze anos. E o trem.
— Exato. Onze anos. E eu não vou perder isso por nada. Nem por alienígenas, nem por generais russos.
Natasha olhou pela janela. O sol estava nascendo no horizonte, tingindo as nuvens de laranja.
— Eu amo você, Little Red. Fica segura. Não exploda a babá.
— Eu também te amo, Nat. Tchau.
A linha ficou muda.
Natasha segurou o telefone por mais um segundo antes de guardá-lo no bolso tático. Ela tocou o corte no lábio novamente.
Clint estava sumido. O mundo estava à beira de uma invasão. Ela tinha que recrutar um cientista que virava um monstro verde quando ficava irritado.
Mas, de todas as ameaças, a única que realmente importava era garantir que ela estivesse viva e em casa em dois meses para ver Emma soprar as velas e embarcar naquele trem vermelho.
— Piloto — chamou Natasha, a voz fria e profissional novamente. — Quanto tempo até Calcutá?
— Quatro horas, Agente Romanoff.
— Acelere. Eu tenho um compromisso
Calcutá, Índia. Periferia.
O calor era sufocante. O ar cheirava a especiarias, esgoto e humanidade aglomerada.
Natasha Romanoff caminhava pelas ruas estreitas, misturando-se à multidão com a facilidade de quem já foi invisível a vida toda. Ela usava roupas locais coloridas, cobrindo o cabelo ruivo e o uniforme tático por baixo.
Uma menininha indiana, descalça e com os olhos grandes, puxou a barra da calça de Natasha.
— Você é a médica? — perguntou a menina no dialeto local. — Meu pai não respira.
Natasha olhou para a criança. Deveria ser apenas uma isca. Uma tática para entrar no perímetro sem alertar o alvo. Mas, pela primeira vez, Natasha viu mais do que um peão no tabuleiro. Ela viu a vulnerabilidade. Viu a inocência que ela estava tentando preservar para Emma.
— Leve-me até ele — disse Natasha, a voz suave.
A menina correu, guiando-a por um labirinto de becos até uma casa inacabada no fim da rua.
Lá dentro, Bruce Banner não estava agindo como um monstro. Ele estava agindo como um santo. Ele estava debruçado sobre uma criança doente, checando os olhos, a respiração, falando com uma calma que desmentia a tempestade nuclear que vivia dentro dele.
Natasha ficou nas sombras, observando. Ele parecia cansado. Resignado.
Banner terminou o atendimento, mandou a família sair e começou a lavar as mãos numa bacia de água suja.
— Você devia ter aceitado o dinheiro — disse ele, sem olhar para trás, em inglês.
— Eu não preciso de dinheiro — respondeu Natasha, saindo das sombras.
Banner parou. Ele secou as mãos devagar e se virou. O olhar dele era cansado, mas inteligente. Ele examinou Natasha, vendo além do disfarce civil.
— Você não é daqui.
— E nem você.
— O que você quer? — perguntou Banner, a postura defensiva.
— S.H.I.E.L.D. — disse Natasha.
Banner soltou uma risada curta e nervosa.
— Eles nunca desistem. Como me encontraram?
— Nunca te perdemos, doutor. Só mantivemos distância. Até agora.
— E por que agora? — Banner começou a andar pela sala, fechando janelas. — O que mudou?
— Nick Fury parece confiar em você. Mas agora precisamos de você.
— Para quê? Para me colocar numa jaula?
— Para encontrar o Tesseract. — Natasha foi direto ao ponto. Ela sabia que Banner respeitava a ciência, não a força. — Ele emite uma assinatura de raios gama fraca demais para nós rastrearmos. Ninguém conhece radiação gama como você.
Banner parou. O interesse científico brilhou em seus olhos por um segundo, antes de ser substituído pela cautela.
— E o "outro cara"? — perguntou ele. — O que Fury quer com ele?
— Nada. Fury quer o cérebro, não o monstro.
Banner riu de novo, balançando a cabeça.
— Você é boa. Você diz tudo certo. Mas eu vejo o jeito que você está parada. Você tem uma arma. E tem um esquadrão lá fora.
— Apenas eu — garantiu Natasha. — O jato está na orla da cidade. Somos só nós dois.
Banner olhou para ela. Ele parecia estar calculando as probabilidades. Então, num movimento súbito e violento, ele bateu as mãos na mesa de metal ao lado de Natasha e gritou:
— PARE DE MENTIR!
O estrondo foi alto.
Num reflexo puramente condicionado, Natasha sacou a pistola que estava escondida nas costas e apontou para a cabeça dele em menos de um segundo. Seu coração disparou.
Não por medo de morrer. Ela já tinha encarado a morte mil vezes.
Mas por medo de não voltar.
A imagem de Emma esperando com o telefone na mão passou pela mente dela. Se o Hulk saísse agora... se ele a esmagasse... Emma ficaria sozinha. O segredo morreria com ela. Clint já estava sumido.
Natasha respirou fundo, trêmula, olhando para Banner.
Banner estava parado, imóvel. Ele não tinha ficado verde. Ele estava olhando para a arma dela com um sorriso triste e irônico.
— Viu? — disse ele, calmo novamente. — Eu só queria ver como você reagiria.
Natasha percebeu o teste. Ela baixou a arma devagar, recuperando a compostura.
— Você tem um senso de humor peculiar, doutor.
— E você tem medo — observou Banner. — Não de mim. De algo mais.
Ele estava certo. O medo dela tinha nome e sobrenome agora: Emma Potter Romanoff.
Natasha guardou a arma. Ela pegou o celular e mostrou a foto do Tesseract.
— Precisamos de você, Bruce. O mundo está à beira de um colapso. E... — ela hesitou, decidindo usar a verdade emocional. — Eles levaram o meu parceiro. Clint Barton.
O nome fez Banner piscar.
— O Gavião?
— Sim. Ele foi comprometido. O homem que pegou o Tesseract... ele transformou Clint em algo que não é ele. Eu preciso trazê-lo de volta. E preciso da sua ajuda para achar o cubo.
Banner olhou para a foto do Tesseract, depois para os olhos de Natasha. Ele viu a desesperança ali. Viu que ela não estava ali apenas como agente, mas como alguém que perdeu a família.
Ele suspirou, pegando a jaqueta velha na cadeira.
— Nova York? — perguntou ele.
— O laboratório está pronto.
— E se eu disser não?
— Eu vou te convencer. — Natasha sorriu, o sorriso profissional voltando ao lugar. — E eu sou muito persistente.
Banner balançou a cabeça.
— Certo. Eu vou. Mas sem estresse, Romanoff. Lembre-se... eu estou tentando evitar o estresse.
Natasha assentiu, guiando-o para fora da casa.
Enquanto caminhavam de volta para o jato, Natasha olhou para a menininha que a tinha guiado. Ela parou por um segundo e entregou à criança todas as notas de rúpias que tinha no bolso. Não era caridade. Era pagamento por lembrá-la por que ela estava lutando.
No jato, enquanto voavam em direção ao porta-aviões aéreo da S.H.I.E.L.D., Natasha observava Bruce Banner limpar os óculos
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
