Banheiro Feminino. Dia das Bruxas.
O cheiro era a primeira coisa que batia. Uma mistura de meias velhas e esgoto público que nunca foi limpo.
Emma, Harry e Ron entraram correndo no banheiro feminino, derrapando no chão molhado. Eles tinham ouvido o grito de Hermione.
— Hermione! — gritou Harry.
Hermione Granger estava encolhida no canto, sob as pias quebradas, chorando de terror.
Diante dela, bloqueando a única saída, estava um Trasgo Montanhês de quase quatro metros de altura. A pele cinzenta parecia granito, o corpo era um amontoado de músculos disformes e, na mão, ele arrastava um bastão de madeira que parecia um tronco de árvore inteiro.
O trasgo rugiu e ergueu o bastão, estilhaçando a pia ao lado da cabeça de Hermione.
— Distraiam ele! — gritou Harry, pegando uma torneira quebrada do chão e jogando contra a parede.
O trasgo parou, girando a cabeça pequena e estúpida para olhar para Harry.
— Ei, cabeça de ervilha! — berrou Ron, jogando um cano de metal.
O trasgo grunhiu e avançou para os meninos. Harry, num ato de coragem estúpida (típica de Grifinória), correu e pulou nas costas do monstro, enfiando a varinha no nariz dele.
O trasgo urrou de dor e começou a se sacudir. Uma mão do tamanho de uma raquete de tênis agarrou a perna de Harry.
— Harry! — gritou Hermione.
O trasgo ergueu Harry de cabeça para baixo. O bastão subiu, pronto para esmagar o Menino-Que-Sobreviveu como se fosse uma mosca.
Ron estava paralisado, varinha na mão, sem saber o feitiço.
Emma estava encostada na porta, tremendo.
Suas pernas pareciam gelatina. Ela queria correr. Ela queria se esconder embaixo da cama e ligar para o Steve. Ela tinha onze anos e aquilo era um monstro de verdade.
Mas então, em meio ao pânico, a mente dela acessou o arquivo.
Arquivo: Treinamento de Campo - Nível Básico.
Instrutora: Romanoff, N.
Fonte: Vídeo roubado do servidor da S.H.I.E.L.D., assistido às 03:00 da manhã no tablet embaixo do cobertor.
A voz da Natasha ecoou na cabeça de Emma, calma e russa:
"Quando o alvo é maior e mais forte que você, confronto direto é suicídio. Você não pode vencê-lo na força. Você precisa tirar os sentidos dele. Se ele não pode te ver, ele não pode te matar. Cegue o alvo. Desoriente. Ataque."
Emma olhou para o trasgo. Harry estava pendurado. O bastão estava descendo.
Emma não tinha as "Viúva Bites" (os braceletes de choque). Ela não tinha granadas de luz.
Ela olhou para a varinha de cerejeira em sua mão.
É a mesma coisa, pensou ela, engolindo o medo. É uma arma. Use como uma arma.
Ela respirou fundo, tentando imitar a postura que viu Natasha fazer mil vezes: pernas afastadas, centro de gravidade baixo.
Ela correu.
Não foi uma corrida elegante. Ela escorregou numa poça d'água, quase caiu de cara, mas usou o impulso para deslizar de joelhos pelo chão de azulejo, passando por baixo do braço do trasgo.
— EI! FEIOSO! — gritou Emma, a voz aguda de criança ecoando no banheiro.
O trasgo parou o bastão no ar, confuso com o vulto pequeno que deslizou por baixo dele. Ele olhou para baixo.
Emma estava de joelhos, bem na frente do rosto dele (já que ele estava curvado).
Ela apontou a varinha direto para os olhos do trasgo, segurando-a com as duas mãos como se fosse uma pistola Glock.
Ela não sabia feitiços de combate avançados. Mas ela sabia um feitiço de luz. E ela sabia que luz concentrada na retina causava cegueira temporária.
— LUMOS... — Emma gritou, canalizando todo o seu medo, toda a sua vontade de salvar o irmão, toda a sua imitação da mãe heroína na ponta daquela varinha. — MAXIMA!
Não foi uma luzinha de leitura.
Foi uma explosão.
Um clarão de luz branca, pura e cegante explodiu da ponta da varinha, como o flash de uma câmera fotográfica multiplicado por mil.
O banheiro inteiro ficou branco.
O trasgo urrou, largando Harry e levando as duas mãos aos olhos queimados pela luz repentina. Ele cambaleou para trás, cego, desorientado.
— Agora, Ron! — gritou Harry, que tinha caído no chão. — O bastão!
Ron, saindo do transe, apontou a varinha.
— Wingardium Leviosa!
O bastão escapou da mão do trasgo cego, flutuou alto acima de sua cabeça e caiu com um baque surdo bem no topo do crânio dele.
O trasgo oscilou. Seus olhos lacrimejavam. Ele desabou no chão com um estrondo que fez as pias tremerem, desacordado.
O silêncio caiu no banheiro.
Emma ainda estava de joelhos, segurando a varinha com as duas mãos, ofegante. O coração dela batia tão forte que doía.
Harry se levantou, esfregando a cabeça. Hermione saiu debaixo da pia. Ron estava branco como papel.
— Ele... ele morreu? — perguntou Hermione.
— Acho que não — disse Harry, chutando o pé do trasgo. — Só desmaiou.
Eles olharam para Emma.
Ela estava tentando se levantar, mas seus joelhos tremiam tanto que ela teve que se apoiar na parede.
— Uau... — disse Ron, os olhos arregalados. — O que foi aquilo, Emma? Você cegou ele! Foi brilhante! Literalmente!
— Foi... — Emma tentou controlar a respiração, guardando a varinha no bolso trêmula. — Foi uma "granada de luz". Tática de distração.
— Granada de quê? — perguntou Ron.
— Coisa de trouxa — explicou Harry, sorrindo orgulhoso para a irmã. — Coisa da Nat.
Hermione olhou para Emma. Ela viu que a amiga não estava se sentindo uma heroína. Ela estava pálida, com vontade de vomitar.
— Você está bem? — perguntou Hermione.
— Eu escorreguei — murmurou Emma, olhando para o joelho ralado. — A Nat nunca escorrega. No vídeo ela deslizava perfeito. Eu pareci um pinguim.
Harry riu, passando o braço pelos ombros da irmã.
— Você pareceu um pinguim que salvou a minha vida, Em. Acho que a Nat vai ficar orgulhosa do pinguim.
A porta se abriu com estrondo. A Professora McGonagall, Snape e Quirrell entraram correndo.
McGonagall olhou para o trasgo desmaiado, para a pia quebrada e para as quatro crianças do primeiro ano.
— O que... em nome de Merlin... aconteceu aqui?
Emma olhou para Snape. O professor de Poções estava olhando para ela. Não com ódio. Mas com aquela curiosidade analítica de novo. Ele tinha visto a postura dela. A forma como ela segurava a varinha.
— Sorte, professora — mentiu Harry, rápido. — Tivemos muita sorte.
Emma abaixou a cabeça, escondendo o sorriso nervoso
A Professora McGonagall estava lívida. Seus lábios eram uma linha fina e branca, e ela olhava para os quatro alunos com uma mistura de choque e fúria fria.
— Expliquem-se — exigiu ela, a voz cortante como vidro. — O que vocês estavam pensando? Vocês poderiam ter sido mortos!
Harry e Ron trocaram olhares culpados, abrindo a boca para gaguejar uma desculpa esfarrapada.
Emma, ainda encostada na parede para esconder o tremor nas pernas, estava fazendo algo diferente. Ela não estava olhando para McGonagall. Seus olhos verdes, estreitos e focados, estavam fixos no Professor Snape.
Snape estava parado nas sombras, atrás de McGonagall. Ele olhava para o trasgo com desdém, mas havia algo errado na postura dele.
Ombro esquerdo tenso. Peso deslocado para a perna direita.
Ele está escondendo uma lesão, analisou Emma mentalmente.
O olhar de Emma desceu. A barra das vestes negras de Snape estava levemente levantada. E lá, na perna esquerda, havia um rasgo no tecido. E sangue. Um corte feio e profundo, como se... como se ele tivesse sido mordido por algo grande.
Três cabeças grande, pensou Emma.
Snape percebeu o olhar dela. Ele puxou a veste rapidamente, cobrindo a perna, e encarou Emma com uma intensidade perigosa.
Emma não desviou o olhar. Ela apenas arquivou a informação: Snape ferido. Possível envolvimento com o terceiro andar. O trasgo foi uma diversão.
— Bem? — pressionou McGonagall.
Antes que Harry pudesse inventar uma história, uma voz pequena surgiu das sombras.
— Foi minha culpa, Professora McGonagall.
Todos se viraram. Hermione Granger se levantou, limpando a poeira dos joelhos.
— Srta. Granger?
— Eu fui procurar o trasgo — mentiu Hermione. A voz dela tremia, mas ela manteve o queixo erguido. — Eu li sobre eles e achei que poderia lidar com ele sozinha. Mas eu estava errada. Se Harry, Ron e Emma não tivessem vindo me procurar... eu estaria morta.
Harry e Ron olharam para Hermione como se ela tivesse acabado de falar em alienígena. Hermione Granger, a aluna modelo, estava mentindo para uma professora?
Emma, no entanto, sentiu um orgulho imenso.
Mentira tática para proteger a equipe, pensou Emma. Boa, Mione.
McGonagall olhou de Hermione para os outros três.
— Bem... nesse caso... — A professora parecia desapontada com Hermione, mas aliviada. — Srta. Granger, cinco pontos serão retirados da Grifinória por sua séria falta de julgamento.
Ela se virou para Harry, Ron e Emma.
— Quanto a vocês três... eu diria que tiveram muita sorte, mas poucos alunos do primeiro ano poderiam enfrentar um trasgo montanhês adulto e viver para contar a história.
Os olhos de McGonagall suavizaram um pouco ao olhar para Emma, notando a varinha ainda segurada com as duas mãos.
— Cinco pontos serão concedidos a cada um de vocês. — McGonagall ajeitou os óculos. — Por pura sorte e... criatividade tática.
Emma soltou o ar que prendia.
— O diretor será informado — disse McGonagall. — Podem ir.
Eles saíram do banheiro rapidamente, passando pelos professores.
Quando Emma passou por Snape, o cheiro de sangue fresco era inconfundível para o nariz dela (que tinha passado tempo demais em enfermarias da S.H.I.E.L.D.).
Ela parou por um milésimo de segundo. Snape a olhou de cima, os olhos negros como túneis.
— Cuidado onde pisa, Potter Romanoff — sibilou ele, baixinho.
— Você também, professor — respondeu Emma, no mesmo tom, olhando significativamente para a perna dele. — Acidentes acontecem quando não prestamos atenção ao cachorro.
Os olhos de Snape se estreitaram numa fenda. Ele entendeu que ela sabia.
Emma saiu andando, o coração batendo na garganta, mas a cabeça erguida.
Corredor da Grifinória.
Eles caminharam em silêncio até estarem longe o suficiente dos professores. O cheiro do trasgo ainda parecia impregnado nas roupas deles.
— Eu não acredito — disse Ron, finalmente quebrando o silêncio. — A Hermione mentiu. Para um professor.
Ele olhou para Hermione com um respeito novo e genuíno.
— Bom, eu não podia deixar vocês levarem a culpa — disse Hermione, o rosto corado, olhando para o chão. — Vocês salvaram minha vida.
— A Emma salvou a vida de todo mundo — corrigiu Harry. — Aquela luz... Emma, você cegou o bicho!
— Foi trabalho em equipe — disse Emma, sentindo as pernas finalmente pararem de tremer. — Harry distraiu, Mione sabia o feitiço de levitação, Ron nocauteou... e eu só tentei não morrer de medo.
Ela olhou para os três.
— Mas vocês viram o Snape?
— O que tem ele? — perguntou Ron.
— A perna dele — disse Emma, baixando a voz e puxando-os para um canto do corredor. — Estava sangrando. Muito.
— E daí? — perguntou Harry.
— Hoje é Dia das Bruxas — explicou Emma, conectando os pontos como Natasha faria no quadro transparente. — Todo mundo estava no banquete. O trasgo entra nas masmorras. Mas o Snape não estava no banquete e nem nas masmorras. Ele foi para o terceiro andar.
— O alçapão! — sussurrou Harry, entendendo. — Você acha que ele soltou o trasgo como distração para passar pelo cachorro?
— E o cachorro mordeu ele — concluiu Emma, satisfeita com a lógica. — Ele quer o que quer que esteja lá embaixo. A Pedra.
— Aquele... — Ron começou a xingar, mas parou.
Eles chegaram ao retrato da Mulher Gorda.
Hermione parou e olhou para os três. Havia um momento estranho ali. O momento em que pessoas que compartilham uma experiência de quase morte deixam de ser apenas colegas de classe.
— Obrigada — disse Hermione de novo, olhando para Ron.
— É pra isso que servem os amigos — disse Ron, dando de ombros, as orelhas vermelhas.
Emma sorriu. Ela olhou para Harry, Ron e Hermione.
Em Nova York, a mãe dela tinha os Vingadores. Uma equipe de desajustados que lutava contra monstros.
Aqui, Emma tinha acabado de encontrar a sua própria equipe. O Escolhido, o Estrategista de Xadrez, a Gênio dos Livros e ela... a Menina que Observava.
— Vamos entrar — disse Emma, passando o braço pelo de Hermione. — Eu preciso escrever pra Nat. Ela vai adorar saber que a "granada de luz" funcionou. E que o Snape está mancando.
Eles entraram no Salão Comunal.
A partir daquele momento, Hermione Granger tornou-se parte do grupo. E Emma Potter Romanoff percebeu que, talvez, ela não precisasse ser uma cópia perfeita da Natasha para sobreviver. Ela só precisava das pessoas certas ao seu lado
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
