O elevador de acesso prioritário subiu os quarenta andares em silêncio absoluto, mas a tensão dentro da cabine era ensurdecedora.
Natasha Romanoff segurava sua Glock 26 ao lado do corpo, o dedo fora do gatilho, mas pronta. Ao seu lado, Clint Barton tinha o arco composto armado, uma flecha de ponta explosiva já encaixada. Maria Hill, com a expressão de quem estava prestes a demitir o departamento de segurança inteiro, verificava a carga de seu fuzil tático.
— Código Vermelho no escritório do Fury — murmurou Clint, olhando para os números dos andares subindo. — Ninguém invade o escritório do Fury. Isso é impossível.
— Alguém invadiu — retrucou Hill, seca. — E se o Fury chamou a gente armada, não é para uma conversa amigável.
Natasha não disse nada. Sua mente não estava na ameaça. Sua mente estava dois andares abaixo, na Ala Médica, onde deixara Emma e Harry com dois guardas. Se o prédio estava comprometido... ela teria que voltar, pegar as crianças e sumir. O Protocolo Little Red já estava rodando em segundo plano em sua cabeça.
As portas do elevador se abriram com um ding suave.
Os três agentes saíram em formação tática, armas erguidas, varrendo o perímetro. Eles invadiram a antessala, passaram pela secretária (que estava desmaiada ou dormindo, Natasha notou o peito subindo e descendo ritmicamente) e chutaram as portas duplas do escritório principal.
— S.H.I.E.L.D.! — gritou Hill. — Mãos onde eu possa ver!
A cena que os recebeu fez Clint baixar o arco por uma fração de segundo, confuso.
Nick Fury estava atrás de sua mesa, vivo, mas pálido, com a arma descansando sobre o tampo de vidro. E diante dele, sentados como se estivessem em um chá da tarde, estavam um homem que parecia ter saído de um livro de história antiga e uma mulher com um chapéu pontudo que olhava para as armas automáticas com um desdém aristocrático.
— Baixem as armas — ordenou Fury, sem tirar os olhos dos visitantes.
— Chefe? — Clint manteve a flecha apontada para a barba prateada de Dumbledore. — Esse é o Papai Noel gótico?
— Eu disse baixem as armas, Barton. Eles não são hostis. Pelo menos, não da maneira que vocês estão acostumados.
Natasha não relaxou. Ela deslizou para o canto mais escuro da sala, encostando as costas na parede, onde tinha visão de todos os ângulos. Ela coldreou a arma, mas manteve a mão próxima à faca em sua bota. Seus olhos verdes, frios e calculistas, fixaram-se em Dumbledore.
O velho bruxo virou a cabeça e olhou diretamente para ela. Não para a arma, não para o rosto. Para os olhos. Natasha sentiu um arrepio na espinha, como se ele estivesse lendo os arquivos criptografados dentro da mente dela.
Dumbledore sorriu suavemente e fez um gesto com a mão.
— Por favor, entrem. Temos muito o que discutir e o tempo, temo eu, é essencial.
— Quem são eles? — perguntou Hill, ainda tensa.
— Meu nome é Albus Dumbledore — apresentou-se o diretor. — E esta é a Professora Minerva McGonagall. Nós somos... educadores.
— Educadores que invadem bases militares de segurança máxima? — Natasha falou pela primeira vez, sua voz saindo rouca e cética do canto da sala.
— Apenas quando nossos alunos estão em perigo, Srta. Romanoff — respondeu Dumbledore.
O uso do nome dela fez Natasha estreitar os olhos.
— Vocês querem saber o que são as crianças — disse Dumbledore, levantando-se. Suas vestes roxas brilharam sob a luz artificial do escritório. — Vocês criaram teorias. Soro do Super Soldado. Mutação Genética. Projetos da HYDRA. Bebês de proveta.
Ele caminhou até o centro da sala.
— A mente humana tem uma capacidade admirável de inventar complexidades para evitar o óbvio. Vocês buscam ciência porque a ciência é segura. A ciência tem regras. Mas Harry e Emma Potter não pertencem ao mundo da ciência.
Dumbledore sacou sua varinha. Era uma madeira antiga, cheia de nós.
Maria Hill levou a mão à arma novamente, mas Fury fez um sinal para ela parar.
— Observem — disse Fury.
Dumbledore fez um movimento circular com a varinha. Não houve explosão, nem raios. Em vez disso, a luz da sala diminuiu. As persianas se fecharam sozinhas. E do meio do ar, uma névoa prateada começou a se formar, densa e brilhante.
— Eles pertencem ao nosso mundo — disse Minerva, sua voz embargada de emoção. — O mundo da magia.
A névoa se condensou, formando imagens tridimensionais, como hologramas feitos de fumaça e memória.
Natasha observou, fascinada e aterrorizada, enquanto a história se desenrolava no ar.
— Há onze anos — começou Dumbledore, sua voz assumindo o tom de um contador de histórias antigas —, nosso mundo estava em guerra. Uma guerra não por territórios, mas pela alma da humanidade. Havia um homem... um bruxo que se perdeu nas sombras. Ele se chamava Voldemort.
A imagem na fumaça mudou. Uma figura encapuzada, sem rosto, apenas olhos vermelhos, aterrorizando cidades. Pessoas correndo. Casas queimando.
— Ele matava sem piedade. Trouxas. Bruxos. Qualquer um que se opusesse à sua ideologia de pureza de sangue. Ele era o medo encarnado. Ninguém estava a salvo.
— E os Potter? — perguntou Clint, hipnotizado pelas figuras de fumaça que batalhavam no ar.
— James e Lilian Potter eram combatentes — explicou Minerva, orgulhosa. — Eram membros da Ordem da Fênix. Lutaram contra ele três vezes. Eram corajosos. Eram gentis. E tinham acabado de ter gêmeos.
A fumaça formou a imagem de um casal jovem. Um homem de cabelos pretos bagunçados e óculos. Uma mulher de cabelos ruivos vibrantes. Eles seguravam dois bebês.
Natasha sentiu o coração falhar. A mulher ruiva... Lilian. Emma era a cópia dela.
— Havia uma profecia — continuou Dumbledore, a voz ficando mais grave. — Uma previsão de que uma criança nascida no final de julho teria o poder de derrotar o Lorde das Trevas. Voldemort ouviu essa profecia. E decidiu agir. Ele caçou os Potter. Eles se esconderam, protegidos por magia, mas foram traídos por um amigo.
A cena mudou para uma casa pequena em Godric's Hollow. A mesma casa que Natasha vira nos relatórios policiais.
— Na noite de 31 de outubro — narrou Dumbledore. — Halloween. Ele os encontrou.
A fumaça ficou agitada, violenta. Natasha viu a porta da casa ser explodida. Viu James Potter gritar para a esposa fugir. Viu o flash de luz verde — a Maldição da Morte — derrubá-lo sem vida na escada.
Clint desviou o olhar. Hill ficou pálida. Natasha não piscou. Ela precisava ver.
— Lilian correu para o quarto das crianças — a voz de Dumbledore era um sussurro doloroso. — Ela não tinha varinha. Ela tinha apenas o próprio corpo. Voldemort lhe deu uma chance de sair da frente. Ele queria apenas os bebês. Mas ela recusou.
A imagem de Lilian Potter se colocando entre o monstro e o berço brilhou intensamente.
— "Não o Harry! Não a Emma! Me leve no lugar deles!" — a voz de Minerva ecoou a memória, tremendo.
— Ela morreu para protegê-los — disse Dumbledore. — E esse sacrifício... essa magia antiga e profunda, o amor de uma mãe... criou uma barreira que Voldemort não podia tocar.
A luz verde atingiu Lilian e depois ricocheteou para os bebês. Mas em vez de matá-los, o feitiço explodiu. A fumaça mostrou a casa ruindo, o teto caindo, e a sombra de Voldemort sendo desintegrada, reduzida a nada mais que um espectro que fugiu para a noite.
— Harry sobreviveu com apenas uma cicatriz — apontou Dumbledore para a imagem do bebê chorando no berço, com o corte em forma de raio. — A marca da maldição falha.
— E a Emma? — A voz de Natasha cortou o silêncio da sala. Ela saiu das sombras, dando um passo à frente.
Dumbledore olhou para ela.
— Emma estava no mesmo berço. A explosão de magia que destruiu Voldemort foi... caótica. Harry foi o escudo, o foco da maldição. Mas Emma foi exposta à pura energia mágica da destruição de um dos bruxos mais poderosos da história, misturada com a proteção da mãe. Ela absorveu parte dessa volatilidade.
A imagem de fumaça mostrou a pequena bebê Emma, ilesa, mas com faíscas saindo de seus dedinhos.
— Ela é uma bruxa, assim como o irmão é um bruxo. Mas o trauma daquela noite, e os anos de supressão que se seguiram, tornaram a magia dela instável. Ela sente demais. E quando ela sente, o mundo queima.
As imagens de fumaça se dissiparam lentamente, deixando a sala na penumbra novamente.
Fury soltou o ar que estava prendendo. Ele se sentou em sua cadeira, processando. Magia. Profecias. Sacrifício.
— Então não é HYDRA — concluiu Fury. — Não é soro. É... destino.
— É herança — corrigiu Minerva. — Eles são famosos no nosso mundo, Sr. Fury. Toda criança bruxa conhece os nomes de Harry e Emma Potter. Os Meninos Que Sobreviveram.
— E vocês os deixaram com aqueles animais? — Natasha falou novamente. Sua voz era fria, cortante como vidro. — Os tios. Vocês sabiam que eles eram heróis e os deixaram num armário debaixo da escada para passar fome?
Houve um silêncio desconfortável. Minerva baixou a cabeça, parecendo envergonhada.
— Era necessário — disse Dumbledore, sem desviar o olhar do de Natasha. — A proteção que a mãe deles deixou corria no sangue da irmã dela, Petúnia Dursley. Enquanto eles chamassem aquele lugar de lar, Voldemort e seus seguidores não poderiam tocá-los.
— "Lar" — Natasha cuspiu a palavra com nojo. — Aquilo não era um lar. Era uma prisão. E a proteção de vocês falhou. A menina quase se matou de raiva.
— Sim — admitiu Dumbledore, com uma tristeza infinita. — Nós falhamos. A crueldade humana superou a magia de sangue. E é por isso que estamos aqui. Para corrigir o erro.
Dumbledore guardou a varinha nas vestes.
— As proteções caíram. O mundo deles não é aqui, numa base militar, sendo estudados como ratos de laboratório. O lugar deles é em Hogwarts. É no mundo mágico. Onde eles aprenderão a controlar quem são. Onde entenderão o sacrifício dos pais.
Fury olhou para Natasha, depois para Dumbledore.
— Se eu entregar as crianças... vocês garantem que essa "ameaça mágica" vai ser contida? Que a menina não vai ter um pesadelo e explodir um quarteirão em Londres?
— Nós ensinamos controle, Diretor Fury — disse Minerva. — Hogwarts é a melhor escola de magia do mundo. Eles estarão seguros.
A lógica era irrefutável. A S.H.I.E.L.D. não sabia lidar com magia. Aqueles dois estranhos sabiam. Era a solução perfeita para o problema de Fury: livrar-se de ativos perigosos e instáveis sem ter que prendê-los ou matá-los.
— Preparem a papelada de transferência de custódia — disse Fury para Hill. — Inventem uma história de cobertura. Parentes distantes encontrados na Europa.
Hill assentiu e saiu da sala para providenciar. Clint guardou a flecha, parecendo aliviado e triste ao mesmo tempo.
— Bem, acho que isso encerra o caso — disse Clint, olhando para Natasha. — Eles vão para casa, Nat. É uma coisa boa.
Natasha não respondeu. Ela estava parada, imóvel como uma estátua.
Por dentro, ela estava gritando.
A história fazia sentido. Tudo fazia sentido. A cicatriz, o fogo, a orfandade. Eles eram realeza de um mundo que ela nem sabia que existia. Eles tinham um destino grandioso. Profecias. Escolas de magia.
Eles não precisavam de uma ex-espiã russa com sangue nas mãos. Eles precisavam de bruxos. De professores.
Natasha sentiu o peso da blusa preta que comprara para Emma. Sentiu a memória do abraço da menina. Eu prometo, ela tinha dito. Você não está sozinha.
Entregar Emma para Dumbledore era, logicamente, a melhor forma de protegê-la. Era cumprir a promessa.
Mas parecia... parecia que ela estava arrancando um pedaço do próprio peito.
Ela sabia que deveria ficar feliz. Missão cumprida. As crianças estavam salvas. O monstro (HYDRA) não existia. Ela podia voltar para sua vida. Voltar a ser a Viúva Negra, sem laços, sem fraquezas.
Mas ela não conseguia sorrir.
Ela levantou a cabeça e olhou para Dumbledore. O velho bruxo a observava com uma expressão de profunda compaixão, como se soubesse exatamente o que estava se passando na cabeça dela. Como se soubesse que, naqueles três dias, Natasha tinha encontrado algo que procurou a vida inteira e agora tinha que abrir mão.
— Para onde eles vão? — perguntou Natasha.
Foi a única pergunta. Sua voz saiu neutra, profissional. O tom da Viúva Negra interrogando um suspeito.
Dumbledore deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os mundos.
— Eles irão para uma casa chamada A Toca — disse ele, suavemente. — Fica no interior da Inglaterra. É a casa da família Weasley.
— Weasley? — repetiu Natasha, memorizando o nome.
— Uma família de bruxos. Antiga, mas humilde. — Dumbledore sorriu. — Molly Weasley tem sete filhos e um coração que não cabe no peito. Ela já está preparando os quartos. James e Lilian deixaram uma herança considerável no nosso banco, Gringotes, então o sustento material deles está garantido. Mas é o sustento emocional que Molly oferece que é valioso.
Dumbledore fez uma pausa, olhando profundamente nos olhos de Natasha.
— Eles terão irmãos. Terão um jardim sem cercas altas. Terão comida quente na mesa três vezes ao dia. E nunca, jamais, serão trancados em um armário.
Natasha assentiu, engolindo o nó na garganta. Era isso. Era a "cerca branca" que ela queria para eles. Era a vida normal (ou o mais normal possível para bruxos).
— Ótimo — disse Natasha, fria. — É melhor do que aqui.
Dumbledore inclinou a cabeça.
— Srta. Romanoff... Natasha. — Ele usou o primeiro nome dela com uma gentileza paternal. — Eu sei o que você fez por eles. A magia de Emma carrega a marca da sua proteção. É um vínculo raro.
Natasha desviou o olhar, focando num ponto na parede.
— Eu fiz meu trabalho. Intervenção tática. Estabilização do ativo.
— Chame como quiser — disse Dumbledore. — Mas saiba que A Toca não é uma prisão. E Hogwarts não é inacessível. Se você desejar... se quiser verificar como ela está... o mundo bruxo saberá ser grato a quem salvou seus heróis. As portas estarão abertas para você.
Era uma oferta. Uma permissão para fazer parte da vida da menina. Para ser a "tia" que visita no natal. Para não cortar o laço completamente.
O coração de Natasha deu um salto. Ela imaginou visitar a tal "Toca". Ver Emma correndo num jardim, usando a blusa preta, sorrindo.
Mas então, a voz de seus instrutores da Sala Vermelha ecoou em sua mente. Amor é para crianças. Você é uma arma. Onde você vai, a morte segue.
Se ela visitasse... ela traria seu mundo com ela. Seus inimigos. Seus demônios. A HYDRA, a KGB, os alienígenas.
Emma estava indo para um mundo de magia. Natasha pertencia ao mundo de sangue.
Misturar os dois seria egoísmo. Seria colocar Emma em perigo apenas para satisfazer a própria carência de Natasha.
A máscara da Viúva Negra desceu completa e impenetrável sobre o rosto de Natasha Romanoff.
— Por que eu ia querer visitar? — disse ela, a voz desprovida de qualquer emoção. Um bloco de gelo. — Minha missão era garantir a segurança deles e descobrir a origem. Missão cumprida.
Dumbledore não pareceu convencido, mas aceitou a mentira com um aceno triste de cabeça.
— Como desejar.
— Eles estão na Ala Médica — informou Natasha, virando as costas para eles. — O acesso é livre agora. Levem-nos daqui antes que eu mude de ideia sobre deixar civis armados com gravetos na minha base.
— Obrigado, Natasha — disse Dumbledore.
Ela não respondeu. Ela caminhou até a porta, passou por Clint (que tentou tocar no braço dela, mas ela se esquivou) e saiu do escritório.
Natasha não foi para o elevador. Ela não foi para a garagem pegar sua moto.
Seus pés, traindo sua mente lógica, a levaram pelas escadas de emergência, descendo dois andares até o nível da Ala Médica.
O corredor estava vazio.
Natasha caminhou até a grande janela de vidro da sala de observação. As luzes lá dentro estavam baixas.
Harry e Emma ainda estavam lá.
Harry estava brincando com o tênis novo, fazendo-o "voar" com as mãos. Ele parecia feliz.
E Emma...
Emma estava sentada na cama, usando a blusa preta de gola alta e a calça legging. Ela estava passando a mão no tecido macio da manga, exatamente onde Natasha tinha tocado mais cedo. A menina olhava para a porta do quarto com uma expectativa silenciosa. Ela estava esperando.
Esperando a mulher de cabelo vermelho voltar.
Natasha colocou a mão no vidro frio, exatamente na direção do rosto de Emma.
— Adeus, Little Red — sussurrou Natasha para o vidro, uma lágrima solitária e traidora escorrendo pelo seu rosto, a única prova de que seu coração estava se partindo em dois. — Tenha uma boa vida.
Emma, lá dentro, levantou a cabeça subitamente e olhou para o espelho falso, como se tivesse ouvido o sussurro. Seus olhos verdes encontraram os de Natasha através do vidro unidirecional.
Natasha recuou para as sombras, virou as costas e caminhou para longe, deixando para trás a única coisa que ela amou o suficiente para deixar ir.
A porta da Ala Médica se abriu, mas desta vez não era a S.H.I.E.L.D.
Harry e Emma, sentados na cama com suas roupas novas, olharam para as figuras estranhas que entravam. Um homem muito velho com uma barba prateada que brilhava e uma mulher com um chapéu pontudo e expressão severa, mas gentil.
Emma instintivamente puxou a gola alta de sua blusa preta, tentando se esconder. Ela procurou por um ponto vermelho no quarto — o cabelo de Natasha — mas a espiã não estava lá.
— Olá, Harry. Olá, Emma — disse Dumbledore, sua voz preenchendo o quarto estéril com uma calma que parecia abraçar as crianças. — Meu nome é Professor Dumbledore. E eu vim levar vocês para casa.
— Casa? — Harry perguntou, desconfiado. — Para a Rua dos Alfeneiros?
— Nunca mais — prometeu Minerva, com veemência. — Para um lugar onde vocês serão bem-vindos. Uma casa cheia de irmãos, comida e magia.
Dumbledore explicou, de forma resumida e adaptada para crianças, quem eles eram. Ele não falou de guerra ou morte naquela hora. Falou de pais que eram heróis. Falou que eles eram especiais. Falou que o fogo não era culpa da Emma, mas um sinal de seu poder.
Emma ouvia, mas seus olhos verdes continuavam varrendo o corredor através da porta aberta.
— A Natasha vem com a gente? — perguntou ela, baixinho.
Dumbledore olhou para a menina com tristeza.
— Não, minha querida. O caminho de Natasha é diferente do nosso. Mas ela garantiu que vocês estivessem seguros até chegarmos.
Emma baixou a cabeça. A sensação de abandono, velha conhecida dela, voltou a apertar seu peito. Mas Dumbledore estendeu a mão. Havia bondade ali. Havia a promessa de um mundo onde ela não seria uma "aberração".
— Vamos? — chamou Minerva. — O trasporte nos espera.
Harry pegou sua sacola de roupas novas. Emma ajeitou sua blusa preta. De mãos dadas, eles saíram do quarto.
O corredor da S.H.I.E.L.D. parecia interminável e frio. Cientistas e agentes passavam apressados, ignorando as crianças.
Mas, perto do elevador, encostada na parede de metal, uma figura solitária esperava.
Natasha Romanoff não tinha ido embora.
Ela estava parada, os braços cruzados, o rosto uma máscara impenetrável de frieza profissional. Mas quando Emma saiu do quarto, os olhos de Natasha se fixaram nos dela.
Não foi um olhar casual. Foi um olhar que atravessou a distância, o vidro e as defesas. Natasha olhou no fundo da alma da menina. E Emma, com sua sensibilidade aguçada, viu. Viu que a mulher de preto não estava ali para vigiar a saída. Estava ali para vê-la partir.
Emma parou de andar.
— Professor? — chamou ela, puxando a manga da túnica de Dumbledore.
— Sim, Emma?
— Posso... posso me despedir?
Dumbledore olhou para Natasha, que permaneceu imóvel. Ele assentiu lentamente.
— É claro. Nós esperaremos no elevador.
Harry e Emma caminharam até Natasha.
Harry foi o primeiro. Ele ajeitou os óculos, olhando para a mulher que o salvou do fogo e lhe deu roupas limpas.
— Obrigado, Sra. Natasha — disse ele, estendendo a mãozinha de forma solene. — Pelas roupas. E... por tudo.
Natasha descruzou os braços e apertou a mão do garoto.
— Cuide-se, Harry. — Ela olhou para ele com seriedade. — E cuide da sua irmã. Você é o escudo dela.
— Eu sou — prometeu ele.
Harry recuou, indo para o lado de Minerva.
Restaram apenas as duas. A Viúva Negra e a Pequena Ruiva.
Emma não disse nada. Ela apenas olhou para cima, para o rosto de Natasha. Ela parecia tão pequena dentro daquela roupa preta larga, tão frágil.
Natasha sentiu sua garganta fechar. A vontade de pegar a menina, correr para a moto e sumir no mapa era avassaladora. Mas ela respirou fundo e forçou o corpo a obedecer à lógica.
Natasha cedeu. Ela dobrou os joelhos e se abaixou, ficando exatamente na altura dos olhos de Emma.
— Você está bonita com essa blusa — disse Natasha, a voz um pouco rouca. — Parece uma agente.
Emma tentou sorrir, mas seus lábios tremiam.
— Você disse que ia achar uma família legal — sussurrou a menina.
— E eu achei — garantiu Natasha. — Dumbledore... ele parece estranho, mas é poderoso. E a família para onde você vai... eles são bons. Vão ter jardim. Vão ter comida. Você vai ser feliz, Emma.
— Eu queria ficar com você — a verdade saiu num sopro doloroso.
O coração de Natasha parou por um segundo.
— Eu não sou uma família, Little Red. Eu sou uma missão. — Natasha engoliu em seco. — Você merece mais do que quartos de hotel e armas. Você merece magia.
Natasha se levantou devagar, criando a distância necessária. Ela estendeu a mão e, num último gesto de carinho, passou os dedos pelo cabelo ruivo da menina, colocando uma mecha atrás da orelha dela.
— Seja corajosa — disse Natasha. — Adeus, Emma.
Natasha começou a recuar.
Mas Emma não aceitou o adeus.
Num movimento rápido, a menina se lançou para frente. Ela envolveu a cintura de Natasha com os braços finos e a apertou. Apertou com toda a força que tinha, enterrando o rosto na jaqueta de couro da espiã, como se tentasse se fundir a ela, como se tentasse ancorar Natasha ali.
Natasha congelou. Suas mãos ficaram paradas no ar, sem saber se a empurravam ou a abraçavam de volta.
Ela olhou para baixo. Viu o cabelo vermelho contra o couro preto. Sentiu o corpo da menina tremendo, segurando o choro.
E, naquele momento, a máscara da Viúva Negra rachou.
Quem olhasse nos olhos de Natasha Romanoff veria. Não havia lágrimas caindo, mas havia algo quebrando. Uma luz se apagando. Era o som silencioso de um coração blindado se estilhaçando de dentro para fora.
Ela fechou os olhos por um segundo, permitindo-se sentir aquele abraço. O último.
— Vá, Emma — sussurrou Natasha, a voz falhando, obrigando suas mãos a pegarem os ombros da menina e, gentilmente, mas firmemente, afastá-la. — Vá agora.
Emma olhou para ela uma última vez, com os olhos cheios de lágrimas, e viu a dor no rosto da sua heroína. Ela entendeu, do jeito que só crianças que sofreram entendem, que Natasha estava fazendo aquilo porque achava que era o certo.
Emma soltou a jaqueta. Ela deu as costas e correu para o elevador, onde Harry e Dumbledore a esperavam.
As portas de metal se fecharam, levando as crianças embora.
O corredor ficou vazio. Silencioso.
Natasha ficou parada no mesmo lugar, olhando para as portas fechadas do elevador. Sua mão ainda formigava onde tinha tocado o cabelo da menina.
Passos se aproximaram. Clint Barton parou ao lado dela. Ele tinha visto tudo.
— Nat... — começou ele, a voz cautelosa.
Natasha respirou fundo, recompondo a postura. Ela passou a mão no rosto, limpando uma emoção que não deveria estar ali.
— Eles foram — disse ela, seca.
— Você fez a coisa certa — disse Clint. — Mas não precisa fingir que não doeu. Eu vi, Nat. Você se apegou a ela.
Natasha olhou para Clint. Seus olhos verdes estavam vermelhos, brilhantes, mas ela não choraria. Não ali.
— Sim, eu me apeguei — admitiu ela, a confissão saindo como um pedaço de vidro da garganta. — Eu me importei. E é exatamente por isso que ela tinha que ir.
— Nat, a gente podia ter dado um jeito... — Clint tentou argumentar.
— Não — cortou Natasha, virando-se para ele com uma intensidade feroz. — Eu sou a Viúva Negra, Clint. Eu tenho sangue na minha conta. Eu tenho inimigos que fariam fila para machucá-la só para me atingir. Ela foi para uma casa de bruxos, protegida por magia. É a melhor opção. É a única opção.
— Você está se punindo — disse Clint, triste.
— Eu estou sendo realista.
Natasha ajeitou a jaqueta, a mesma onde Emma tinha chorado minutos antes. O cheiro de chocolate e xampu infantil ainda estava lá, assombrando-a.
— Diga ao Fury que o relatório estará na mesa dele amanhã — disse Natasha, começando a andar em direção à saída, na direção oposta ao elevador.
— Aonde você vai? — perguntou Clint. — A gente tem o debriefing da missão...
— Eu não vou a debriefing nenhum — Natasha nem olhou para trás. — Eu estou tirando o meu dia de folga. Aquele que o Fury me prometeu.
— Nat, espera...
— Não me siga, Barton — a voz dela era um aviso mortal. — Eu vou para casa. Eu vou beber vodka. E eu vou esquecer que eu tenho coração. Não tente me impedir.
Ela dobrou o corredor e sumiu de vista, deixando Clint sozinho no corredor vazio, sabendo que, embora Natasha fosse a mulher mais forte que ele conhecia, naquele dia, ela estava saindo daquela base mais quebrada do que entrou.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
