Capitulo 84

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Quarto Principal. Cobertura de Natasha. 03:00 da Manhã.

O sonho não começou com imagens. Começou com o cheiro. Cheiro de amônia, piso encerado e sangue metálico fresco. Frio. Um frio que entrava pelos ossos e fazia os dentes doerem.

Natasha não estava em Londres. Ela não tinha trinta e poucos anos. Ela tinha doze. Suas mãos eram pequenas, pálidas e estavam tremendo, segurando uma faca tática que parecia pesada demais para o seu pulso infantil.

À sua frente, na neve artificial do pátio de treinamento, estava Oksana. Elas dividiam o beliche. Oksana tinha trançado o cabelo de Natasha na noite anterior. Oksana tinha lhe dado metade de sua ração de pão quando Natasha não atingiu a meta de tiro.

Agora, Oksana estava de joelhos, sangrando no ombro, respirando com dificuldade.

Termine, Romanova — a voz da Madame B ecoou pelos alto-falantes, sem emoção, sem misericórdia. — Apenas uma volta para o dormitório.

Natasha olhou para os olhos de Oksana. Havia medo lá. Mas havia também resignação. Oksana sabia. Na Sala Vermelha, fraqueza era sentença de morte.

Por favor... — Oksana sussurrou, mas não estava pedindo piedade. Ela estava pedindo rapidez.

No sonho, Natasha não queria se mexer. Ela queria largar a faca e gritar. Mas seu corpo de doze anos se moveu por instinto de sobrevivência, programado e condicionado. Ela avançou. Oksana não lutou. A faca desceu. O som do metal cortando carne. O calor do sangue espirrando nas mãos de Natasha, manchando a neve branca de vermelho vivo. O brilho nos olhos de Oksana se apagando, transformando-se em vidro vazio.

Bom — disse Madame B.

Natasha olhou para as próprias mãos. Elas estavam vermelhas. O sangue não saía. Ela esfregava, mas só espalhava mais.

Assassina — a voz de Oksana sussurrou, mas a boca dela não se mexeu.

Natasha tentou gritar, mas seus pulmões estavam cheios de sangue. Ela estava se afogando.

— NÃO!

Natasha acordou com um solavanco violento, sentando-se na cama. O grito morreu em sua garganta, transformando-se em um engasgo agudo. Seu corpo estava encharcado de suor frio, o pijama de seda colado na pele como uma segunda camada gélida. O coração batia tão forte que doía as costelas recém-curadas.

Ela tateou o lençol freneticamente, procurando a faca, procurando o sangue, os olhos arregalados na escuridão, as pupilas dilatadas de terror puro.

Então, ela sentiu o toque. Mãos. Mãos no rosto dela. Mãos pequenas.

O reflexo de assassina de Natasha quase assumiu o controle. Seu braço tensionou para quebrar o pulso de quem a tocava. Mas algo no cheiro — não sangue, mas lavanda e xampu de maçã — parou o golpe no meio do caminho.

— Mãe! Mãe, sou eu. Respira.

A voz era urgente, mas suave. A visão de Natasha clareou lentamente. O pátio de neve da Sibéria desapareceu, substituído pelas sombras do seu quarto em Londres.

Emma estava sentada na beira da cama, de joelhos. As mãos dela seguravam o rosto de Natasha com firmeza, os polegares acariciando as bochechas molhadas de lágrimas e suor. Os olhos de Emma estavam cheios de medo, mas não dela. Medo por ela.

— Você estava gritando — Emma sussurrou, a voz trêmula. — Você estava gritando em russo.

Natasha piscou, a respiração saindo em arfadas curtas e dolorosas. Ela olhou para a porta do quarto, que estava aberta. A luz do corredor desenhava uma silhueta. Hermione Granger estava parada ali, no batente da porta. Ela usava um pijama longo e abraçava o próprio corpo. A garota inteligente, que sempre tinha uma resposta para tudo, parecia aterrorizada. Ela olhava para Natasha como se estivesse vendo um fantasma sendo exorcizado.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora