Sala de Aula 1B. Torre de Transfiguração. Terça-feira, 17:00.
O sol da tarde entrava pelas janelas altas em feixes de luz empoeirada, iluminando as fileiras de carteiras vazias. O silêncio na sala era absoluto, quebrado apenas pelo som monótono e irritante de um relógio de pêndulo na parede. Tique-taque. Tique-taque.
Natasha Romanoff estava de pé no centro da sala. Ela suava. Não era o suor de uma luta física, o tipo que ela conhecia e respeitava. Era um suor frio, de exaustão mental, de frustração contida. Seus cabelos ruivos estavam presos num rabo de cavalo frouxo, e ela havia tirado o blazer caro, ficando apenas com a camisa branca de mangas arregaçadas.
Na carteira à sua frente, um palito de fósforo repousava, intacto, zombando dela.
— Postura, Sra. Romanoff — a voz de Minerva McGonagall cortou o ar como um estalo de chicote.
Minerva estava de pé perto do quadro-negro, as mãos cruzadas na frente das vestes verde-esmeralda, os óculos quadrados refletindo a luz. Ela parecia uma estátua de rigor e paciência, mas Natasha, treinada para ler microexpressões, via o ceticismo nas linhas ao redor da boca da professora.
— A magia não é força bruta — Minerva instruiu, caminhando lentamente ao redor de Natasha. — Você está segurando a varinha como se fosse uma faca que você vai cravar na jugular de alguém.
Natasha olhou para a varinha em sua mão. Era uma varinha de treino velha, de faia, lascada na ponta, que Dumbledore havia desenterrado do almoxarifado. Ela parecia morta na mão de Natasha. Apenas um pedaço de pau.
— No meu mundo, se você não segura a arma com firmeza, o recuo te machuca — Natasha retrucou, os dentes cerrados.
— Aqui, se você segura com firmeza demais, você sufoca a intenção — Minerva corrigiu, parando ao lado dela. — Relaxe o pulso. O movimento é fluido. A ponta da agulha. Imagine a mudança. Não ordene a mudança. Persuada a madeira a se tornar metal.
Natasha bufou, frustrada. Ela tentou relaxar o pulso. Ela apontou a varinha para o fósforo. Focou. Lembrou-se da teoria. Transfiguração: alteração da estrutura molecular através da imposição de vontade mágica. Ela sabia física quântica. Ela sabia que matéria era energia. Deveria ser fácil.
— Acaulis... — ela começou, mas corrigiu. Não, esse não era o feitiço. — Mutare! — Natasha ordenou, fazendo o movimento.
Nada. O fósforo nem tremeu.
Natasha fechou os olhos, respirando fundo. O chip no braço esquerdo, agora silencioso graças ao Q, parecia pesar uma tonelada. A sensação de impotência era avassaladora. Ela podia pilotar um jato, hackear o Pentágono e matar um homem com as coxas. Mas não conseguia fazer um palito virar uma agulha.
— De novo — Natasha disse, abrindo os olhos.
— Sra. Romanoff... — Minerva começou, o tom suavizando. — Já faz duas horas.
— De novo.
Natasha tentou mais dez vezes. Na décima primeira, uma faísca fraca saiu da ponta da varinha, queimou a cabeça do fósforo e soltou uma fumaça preta que cheirava a enxofre. O fósforo continuou sendo madeira queimada. Não metal.
Minerva suspirou. Um som longo, cansado. Ela caminhou até Natasha e, com delicadeza, baixou o braço da espiã.
— Chega — Minerva disse, a voz firme, mas não severa. — É o suficiente por hoje, Natasha.
— Não — Natasha puxou o braço. — Eu não terminei. Dumbledore disse que eu podia. Ele disse que o sangue da Lily...
— O sangue de Lily Potter pode ter aberto as portas do castelo para você — Minerva interrompeu, a voz subindo um tom —, mas canalizar magia? Isso requer um núcleo mágico, Natasha. Algo que nasce com a bruxa. Minerva olhou para ela com pena. E aquilo feriu Natasha mais do que qualquer feitiço. — Albus é um otimista. Ele acredita que o amor supera todas as leis da natureza. Mas a Transfiguração é uma ciência exata. Você não tem a centelha. Nós estamos tentando acender uma fogueira com pedras molhadas.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
