Capitulo 20

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O jato executivo da Stark Industries tocou a pista molhada com suavidade, os pneus cantando brevemente antes de desacelerar.
Natasha Romanoff desceu a escada assim que a porta se abriu. Ela vestia roupas civis — uma calça jeans escura, botas confortáveis e uma jaqueta de couro bordô que parecia menos uma armadura e mais... humana. O cabelo ruivo estava solto, balançando com o vento frio inglês.
Não havia comitiva de recepção. Não havia agentes do MI6.
Havia apenas um homem alto, de barbas prateadas e vestes cor de ameixa, segurando um guarda-chuva preto, parado no fim da pista como se fosse o dono do aeroporto.
— Pontual como sempre, Srta. Romanoff — disse Albus Dumbledore, sorrindo quando ela se aproximou.
— Dumbledore. — Natasha parou, ajeitando a alça da bolsa no ombro. Seu coração estava batendo num ritmo que ela geralmente reservava para desarmar bombas com o cronômetro zerando. — Onde ela está?
— Em Londres. No Beco Diagonal. — Dumbledore apontou para um carro preto antigo estacionado atrás dele. — Hagrid levou as crianças mais cedo. Eles precisam de dinheiro bruxo antes de comprar as varinhas. Eles estão em Gringotes agora.
— Gringotes? O banco?
— Exatamente. O prédio branco e imponente no final da rua. — Dumbledore baixou o tom de voz, tornando-se conspiratório e gentil. — Eles devem estar terminando agora. Achei que seria... poético... se você estivesse esperando lá fora. Como alguém que espera a família voltar do trabalho. Ou, neste caso, de uma aventura subterrânea.
Natasha engoliu em seco.
— Você acha que ela vai gostar de me ver? E se ela estiver brava porque eu demorei?
Dumbledore olhou para a espiã mais letal do mundo tremendo de medo de uma menina de dez anos.
— Natasha, a coragem assume muitas formas. Enfrentar um exército alienígena é uma delas. Enfrentar o medo de ser amada é outra. Vá. Ela está esperando, mesmo sem saber.
Beco Diagonal.
Natasha seguiu as instruções de Dumbledore para entrar na passagem mágica atrás do Caldeirão Furado. Quando os tijolos se abriram, revelando a rua tortuosa, colorida e cheia de magia, Natasha teve que se segurar para não entrar em modo de combate.
Eram vassouras voando, corujas piando, caldeirões empilhados e crianças com narizes encostados em vitrines.
Mas ela ignorou tudo. Seus olhos focaram no grande edifício de mármore branco como a neve que dominava a paisagem: Gringotes.
Ela caminhou até lá, abrindo caminho entre bruxos e bruxas com sua eficiência habitual. Ela subiu os degraus de pedra branca e parou perto de uma das colunas, um pouco ao lado das grandes portas de bronze polido.
Ela cruzou os braços para esconder o tremor nas mãos. Ela olhou para o relógio. Olhou para a porta.
— Vamos lá, Little Red... — sussurrou ela.
E então, as portas de bronze se abriram.
Primeiro, saiu Rubeus Hagrid, enorme, parecendo um urso amigável, piscando contra a luz do sol que tentava sair entre as nuvens. Logo atrás dele, vinha um menino de óculos e cabelos pretos bagunçados — Harry — segurando uma bolsa de moedas de ouro com um sorriso de orelha a orelha.
E atrás de Harry...
Lá estava ela.
Emma usava o suéter tricotado pela Sra. Weasley, um pouco grande demais para ela, e jeans. Ela olhava para o saco de moedas em sua mão, conversando animadamente com o irmão.
— Harry, você viu os duendes? Eles são assustadores e incríveis! E o carrinho...
— Emma — a voz de Natasha não foi um grito. Foi apenas uma chamada, mas carregada de uma emoção que cortou o barulho da rua movimentada.
Emma parou de andar no meio da escadaria.
Ela levantou a cabeça. Seus olhos verdes varreram a multidão e travaram na figura ruiva encostada na coluna de mármore.
O mundo ao redor delas pareceu ficar mudo. Não havia mais barulho de caldeirões ou gritos de vendedores. Havia apenas Natasha.
Natasha descruzou os braços e abriu um sorriso — não o sorriso sedutor da Viúva Negra, nem o sorriso frio da espiã. Um sorriso trêmulo, vulnerável e real.
A bolsa de moedas escorregou da mão de Emma e caiu no chão com um tilintar metálico. Mas ela não olhou para baixo.
— NAT!
O grito de Emma foi pura alegria destilada.
Ela não andou. Ela correu. Ela desceu os degraus restantes voando, ignorando a multidão, ignorando Hagrid, ignorando tudo.
Natasha deu um passo à frente e se abaixou, abrindo os braços.
O impacto foi sólido e maravilhoso. Emma se lançou contra ela com tanta força que Natasha teve que dar um passo para trás para se equilibrar. A menina passou os braços ao redor do pescoço de Natasha e enterrou o rosto na curva do ombro dela, as pernas envolvendo a cintura da mulher, recusando-se a tocar o chão.
— Você veio! Você veio! — soluçava Emma contra a jaqueta de couro. — Eu sabia! Eu sabia!
Natasha fechou os olhos e apertou a menina contra si, uma mão nas costas dela e a outra protegendo a cabeça ruiva.
— Eu vim — sussurrou Natasha, a voz embargada, enterrando o nariz nos cabelos de Emma.
Cheirava a xampu de morango barato e ar livre. Cheirava a infância. Cheirava a vida.
Ali, no meio do Beco Diagonal, com bruxos parando para olhar a cena comovente, Natasha Romanoff sentiu o último pedaço de gelo da Sala Vermelha derreter em seu peito.
O peso das costelas quebradas, o peso do ledger vermelho, o peso dos pesadelos... tudo desapareceu.
Ela sentiu o corpinho de Emma tremendo de felicidade em seus braços. Sentiu a confiança absoluta daquele abraço.
Dumbledore estava certo. Ela não trouxe a morte. Emma trouxe a cor.
Natasha abriu os olhos, que transbordavam lágrimas que ela não se importava mais em esconder. Ela olhou por cima do ombro de Emma e viu Harry sorrindo timidamente. Viu Hagrid assoando o nariz num lenço do tamanho de uma toalha de mesa, chorando copiosamente de emoção.
Natasha apertou Emma mais uma vez, sentindo o vínculo mágico pulsar quente e dourado entre elas, agora completo.
— Eu estou aqui, Emma — prometeu ela, beijando o topo da cabeça da menina. — E eu nunca mais vou soltar.
— Nunca mais? — perguntou Emma, levantando o rosto molhado de lágrimas, os olhos brilhando de esperança.
— Nunca mais — confirmou Natasha. — Eu fiz a minha escolha, Little Red. E foi a melhor escolha da minha vida.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora